Opinião

A varinha mágica de Vladimir Putin

A varinha mágica de Vladimir Putin

Como numa parada militar na Praça Vermelha, Moscovo usou da pompa mediática para dar o tiro de partida na intensa guerra global pela primazia da vacina que pode resgatar o Mundo das garras da covid.

Ao anunciar e registar uma possível cura sem garantir todas as fases de teste, Vladimir Putin insuflou o ego da Mãe Rússia no xadrez da geopolítica, mas relançou a discussão sobre os perigos de uma estratégia apressada e frágil que pode minar o aturado trabalho científico de uma vasta comunidade de países e empresas e, sobretudo e mais arriscado, vir a desacreditar o potencial regenerador de uma vacina junto daqueles a quem se destina.

Rússia, Estados Unidos e China perceberam cedo a importância de chegar primeiro nesta maratona que, na verdade, sempre foi um sprint pela supremacia global e pelo acesso a proveitos financeiros incalculáveis. Mas apenas a Rússia teve a ousadia de passar uma rasteira aos adversários em cima da linha da meta, abdicando de princípios éticos elementares e de obrigações científicas consensuais. Desde logo, porque prescindiu da chamada terceira fase do teste, em que a vacina é administrada a uma população alargada, exposta ao vírus, o que garante maior fiabilidade em matéria de resposta imunitária.

São, por isso, naturais as reservas da comunidade internacional, por muito que Putin garanta que tenha inoculado a solução milagrosa numa das filhas, que já tenha encomendas de 20 países e que a partir de janeiro estará à venda nas farmácias. Neste momento, há mais de 100 vacinas em investigação e, mesmo assim, escasseiam certezas de que possa ser encontrada uma droga segura e eficaz nos próximos meses. Não por acaso, vários especialistas têm reforçado precisamente os alertas sobre a necessidade de retirar algum pendor salvífico à vacina. Porque os resultados desta primeira versão, tal como sucedeu com o HIV, podem ser medíocres.

Por outro lado, a varinha mágica de Putin encerra outras disformidades: pode criar uma falsa sensação de conforto, fazendo baixar a guarda dos potenciais doentes; e, caso se prove ineficaz, contribuir para alargar as fileiras dos negacionistas da ciência. O milagre russo pode, afinal, revelar-se um monumental desastre.

*Diretor-adjunto

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