Opinião

Auf wiedersehen, senhora Merkel

Auf wiedersehen, senhora Merkel

Seja qual for o idioma usado para nos despedirmos de Angela Merkel, uma coisa é certa: dificilmente a Alemanha, e por maioria de razões a Europa, conhecerá uma liderança com o carisma, importância e longevidade da chanceler alemã, que assinala hoje, simbolicamente, o último dia aos comandos da maior economia da zona euro.

Por isso, auf wiedersehen, senhora Merkel. Quem não conseguir esquecer os anos de chumbo da austeridade, dirá que não deixa saudades; quem se der ao trabalho de ser mais justo na radiografia política da mulher que junta as mãos num losango e ainda faz as próprias compras no supermercado reconhecerá que foi graças ao seu pragmatismo e enorme habilidade negocial que a Europa conseguiu manter-se, num contexto de permanente volatilidade, como um exemplo de paz e prosperidade.

Nestes 16 anos, Merkel não evitou as grandes crises, mas escolheu sempre o caminho mais estreito para torná-las passado. Houve momentos em que a chanceler foi a líder europeia de que a Alemanha precisava, em particular durante os terríveis anos do colapso financeiro e da crise das dívidas soberanas. Para quem não se recorda, o mapa do Velho Continente ficou dividido a meio: em cima o Norte cumpridor, em baixo o Sul esbanjador e endividado, onde avultavam os países resgatados como Portugal.

Mas em momentos-chave, como do êxodo migratório mais grave dos últimos anos, a chanceler alemã deu provas de um profundo sentido de Estado e de uma tremenda generosidade e humanidade, acolhendo um milhão de refugiados, dando com isso um exemplo a toda a Europa e estendendo, de forma indesejada mas perversa, a passadeira vermelha à extrema-direita alemã. A Alemanha pós-Merkel será menos dominante, sobretudo devido ao complexo xadrez político que se avizinha. E esse vazio deixado por Merkel também contaminará a Europa.

*Diretor-adjunto

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