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Opinião

Centeno bom, Centeno mau

Centeno bom, Centeno mau

Numa leitura romântica, e porquanto ingénua, poderíamos dizer que Mário Centeno vai embora de consciência tranquila porque fez tudo o que lhe competia. E que o país, à Esquerda e à Direita, e até mesmo a Europa austeritária que sempre olhou para nós de esguelha, lhe reconhece a competência.

Mas as múltiplas declarações de amor que fomos ouvindo em reação à partida ruidosa do ministro mais popular do Governo - e ser ministro das Finanças e popular não é para todos - soam mais a epitáfio político do que a saudade. Se é verdade que Centeno foi o primeiro a agarrar o cálice sagrado do excedente orçamental; se foi o primeiro português ao leme do Eurogrupo; se foi, em grande medida, o responsável por apagar da narrativa instituída a lengalenga de que Portugal era um país de pândegos gastadores, também é indesmentível que não deixará de haver quem olhe para esta saída como uma fuga egoísta no momento mais complexo da governação e, sobretudo, no período de maior exigência coletiva dos últimos anos, em que é pedido à nação que se reerga de um choque social e económico sem precedentes. Ora, para que isso suceda, e sem desprimor para o sucessor João Leão, teria sido bom contar com os melhores. A reação do presidente da República foi demonstrativa desta tensão.

Ficará, por isso, a dúvida eterna: teria o Mário Centeno bom sido capaz de vestir a capa do Mário Centeno mau? Teria o ministro que cativou como ninguém, que capturou o espaço de manobra à Esquerda e à Direita, distribuindo rendimentos e impostos com um sorriso simpático e uma tremenda eficácia eleitoral, sido capaz de esquecer as receitas para se dedicar às despesas? Jura quem sai e quem entra que o rumo estratégico será o mesmo: contas públicas enxutas. Ainda que isso soe mais a desejo do que a certeza.

No horizonte de Centeno está agora o Banco de Portugal, apesar de essa saída profissional estar forrada de incompatibilidades. Mesmo assim, é pouco crível que, fora do Governo e do Eurogrupo, ao "Ronaldo das Finanças" seja fechada mais essa porta. A não ser que surjam outros voos.

A demissão de Mário Centeno encerra outra lição: a de que nem um ministro das Finanças que fez tudo bem e atingiu metas históricas é capaz de resistir à força centrífuga dos dois grandes pilares do regime: António Costa e Marcelo Rebelo de Sousa. São precisos dois para dançar o tango do poder. Três é uma multidão.

Diretor-adjunto

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