Opinião

Confinar nos portugueses

Confinar nos portugueses

A comunicação política em pandemia faz tanto ou mais do que a vacina pela saúde dos cidadãos. Sinais errados geram comportamentos errados, proclamações dúbias levam a interpretações egoístas.

No Natal, o primeiro-ministro não usou as chaves para trancar o país porque disse confiar nos portugueses. E, já agora, na sorte. Mas o contrato de confiança foi quebrado semanas depois pela dura realidade dos epitáfios: uma média diária de 150 mortos, infetados acima dos 10 mil. Dia sim, dia sim.

E, de uma forma perversa, um adormecimento geral perante esta montanha de cadáveres que parece normalizada nas nossas consciências. Será que estes mortos já não têm rosto? São estatística colateral? O Natal foi um presente envenenado. Agora corremos desalmadamente atrás do prejuízo, sem prejuízo de voltarmos a tropeçar nas pernas.

O primeiro dia da clausura light ganhou a forma de uma pergunta: alguém se sentiu confinado? Com as escolas abertas (decisão política necessária e corajosa, mas que se arrisca a ser de vida curta), o frenesim de uma sexta-feira foi o de sempre, sobretudo nas grandes cidades: trânsito vigoroso, cada um na sua vidinha, tudo enredado num novelo de exceções tão espesso que houve quem tivesse chegado atrasado ao teletrabalho porque foi comprar pão à padaria, leite ao hipermercado e pelo caminho ainda deixou os filhos nas aulas. Na comparação com março e abril, as deslocações aumentaram de forma exponencial. Houve mesmo alguém que se sentiu confinado?

Mas este recolhimento não é como o primeiro, contemporizou o presidente da República. Pois não. Já ninguém parece lembrar-se de como ficávamos de queixo caído com 20 mortes diárias e mil infetados. E esse, voltando ao princípio e à força da mensagem, é o ponto: os cidadãos não têm a mesma tolerância nem respeito para com as medidas restritivas.

Manter as escolas abertas e fechar os ATL foi apenas um de entre vários absurdos deste novo confinamento. A economia não pode morrer, os desprotegidos precisam de uma boia, mas o mais provável é que esta reiterada prova de confiança de António Costa nos portugueses se transforme num gigantesco boomerang. Espero estar enganado.

*Diretor-adjunto

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