Opinião

Democracia pela metade

Democracia pela metade

São certamente respeitáveis os motivos dos 4,25 milhões de eleitores recenseados que, no domingo, se demitiram de participar na escolha do Parlamento que os representa.

Como são certamente respeitáveis as razões que fizeram com que mais de 218 mil cidadãos se tenham deslocado à assembleia de voto para votar em branco (129 mil) ou para rabiscar o boletim, votando nulo (88 mil). Traduzidos numa vontade, o que estes números demonstram, para além de um natural, embora discutível, exercício de liberdade perante a participação na vida pública, é que o partido da abstenção (a mais alta da democracia) foi novamente o mais representativo; e que os brancos e os nulos, agregados, tornar-se-iam, com dez cadeiras vazias, no quinto partido do hemiciclo - com mais eleitores e deputados, por exemplo, do que o CDS. Por junto, o Portugal dos sem voto e dos sem opção de voto reúne 4,5 milhões de almas.

Assustador, se pensarmos que somos 10 milhões com poder para decidir.

Produzir sentenças sobre as razões da abstenção e dos modelos de protesto é certamente arriscado, até porque, como sabemos, a limpeza dos cadernos eleitorais continua por fazer e a abstenção tanto pode ser o reflexo de um total alheamento face ao ecossistema político e social, como o reflexo de uma decisão consciente de não votar. Mas ainda que este seja um soluço clássico na digestão pós-eleitoral, não podemos deixar de nos sobressaltar com o facto de, apesar de haver 21 candidaturas em disputa - e, porquanto, programas para todos os gostos e simpatias ideológicas - isso não ter impedido que, das legislativas de 2015 para estas, tenham sido menos 288 mil portugueses a votar.

Para a azia ser total, resta concluir que, entre abstenção, nulos, brancos e desistentes, há quase cinco milhões de cidadãos que abdicaram de escolher uma solução política. Pode uma democracia pela metade ser uma democracia sã?

*Diretor-adjunto