Opinião

Economia de pós-guerra

Economia de pós-guerra

Foi num gigantesco espelho chamado realidade que a União Europeia viu refletidas as suas fragilidades.

Depois de uma pandemia que obrigou a esforços titânicos, segue-se uma guerra destrutiva que pede uma urgência impossível de atender. Bruxelas está presa ao passado das suas dependências económicas e militares e deve, por isso - por mais impopular que possa soar aos ouvidos de quem anseia (justamente) por cortar todos os cordões com a Rússia -, refrear a sua capacidade de reação em contexto de guerra. Não se muda um modelo de organização e interdependência entre dezenas de estados num dia. Nem num mês.

Passos muito importantes foram dados com as sanções inéditas impostas a Moscovo, mas aquilo que saiu do Conselho Europeu de Versalhes foi só um bom início de conversa. Não apenas no mero simbolismo da adesão da Ucrânia à União Europeia (é da família de coração, mas não do clube que paga quotas), como nas medidas concertadas para desenvolver uma estratégia que torne este bloco de democracias autossuficiente em termos energéticos, alimentares e militares. A Europa do pós-guerra será necessariamente diferente e aquilo que nos espera é uma crise económica de consequências imprevisíveis. Sem o controlo efetivo do mercado energético (eletricidade, petróleo e gás), a União Europeia terá de continuar a manter a torneira russa aberta; e o mesmo é válido para a sobrevivência alimentar, já para não falar da ausência de uma verdadeira alternativa de defesa à NATO.

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Querer refundar a Europa sobre os despojos de uma guerra pode ser muito tentador, mas é pouco prudente. Aliviem-se os impostos na energia, reforcem-se os orçamentos bélicos, recuperem-se os centros de produção alimentar perdidos, mas pense-se, no imediato, num plano ambicioso que estanque, na medida do possível, uma sangria social e económica que pode ser bem mais devastadora do que a provocada pelo coronavírus. A ideia de emitir dívida conjunta, expediente usado no pós-pandemia, deve, pois, ser discutida a sério pelos parceiros europeus. Mesmo por aqueles (os de sempre) que não querem abrir os cordões à bolsa.

*Diretor-adjunto

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