Opinião

Esvaziar o mal pela raiz

Esvaziar o mal pela raiz

Eduardo Cabrita detém, muito provavelmente, o título nacional de ministro com maior capacidade de resistência aos escândalos da governação.

Mas o grande talento deste verdadeiro peixe de águas profundas só se tem aprimorado no tempo graças à cobertura política do primeiro-ministro. Trapalhada após trapalhada. A anunciada reestruturação do SEF, que conduzirá ao seu inexorável esvaziamento operacional, com a passagem dos inspetores (todos, alguns?) para os quadros da PSP, GNR e PJ, é o mais recente exemplo de como o titular da Administração Interna tem sabido fugir para a frente para não cair para trás. Recorrendo a uma célebre metáfora futebolística, perante o precipício, Eduardo Cabrita decidiu dar um novo passo em frente.

Por mais que tente convencer-nos de que esta reforma não é uma resposta ao comportamento vergonhoso do Estado no caso Ihor (um cidadão ucraniano foi morto à pancada em instalações do SEF, alegadamente por três inspetores daquela polícia), a verdade é que esta fusão que ainda ninguém percebeu verdadeiramente para que serve tem um único propósito: castigar o Serviço de Estrangeiros e Fronteiras e fazer disso um exemplo. Sob a capa de um nome pomposo (Serviço de Estrangeiros e Asilo), a investigação será transformada num serviço de secretariado.

Estratégia que até podia ser aceitável, não fosse dar-se o caso de o mesmo ministro ter demorado meses a fio a reagir a um dos episódios mais negros da democracia portuguesa e de, em completo contrassenso, ter anunciado, em novembro passado, a contratação de mais 100 inspetores, devido ao "momento histórico" daquela polícia e como resultado da "aposta no rejuvenescimento e no reforço do SEF que não tem paralelo em nenhum outro organismo do MAI". O ministro à prova de bala recorreu novamente à maquilhagem política como plano de fuga. Mais uma medalha na sua bem ornamentada lapela.

*Diretor-adjunto

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