Opinião

Fungos comunitários

A luta entre quem aplica a Justiça e quem só pensa em fugir à Justiça será sempre ingrata para os primeiros. É a velha imagem do ladrão de autorrádios que está sistematicamente à frente dos fabricantes de automóveis. No crime económico é a mesma coisa.

João Rendeiro fugiu porque queria, mas sobretudo porque podia. Houve uma falha conjuntural e muita candura judicial, mas nenhum sistema consegue ser infalível quando posto à prova por uma vontade indomável de escapar, em particular quando a esta se somam os meios financeiros para o fazer. Nos crimes de colarinho branco e fraude económica tudo é mais sofisticado, mas o sacrossanto princípio está plasmado na Bíblia há séculos: onde há fruto proibido, há desejo.

Ora, se pensarmos que, até 2029, Portugal vai receber, por ano, mais de seis mil milhões de euros em fundos europeus, temos avolumadas razões para nos preocuparmos com o tamanho do fruto e com o tamanho do desejo. A "bazuca" ainda não começou verdadeiramente a disparar notas e, ainda assim, há 345 projetos com financiamento comunitário investigados pela Justiça por suspeita de fraude.

Na verdade, o desvario com a enxurrada monetária de Bruxelas é apenas um acidente à espera de acontecer, por mais comissões de acompanhamento governamental que se criem. O Ministério Público não dispõe de meios suficientes para vigiar como devia a aplicação das ajudas e a necessidade de aplicarmos o capital de forma expedita (caso contrário, será devolvido) vai tornar menos exigentes os padrões de ética, lisura e legalidade.

Os sucessivos apelos do presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, no sentido de apertar a malha, sendo pertinentes, arriscam cair em saco roto. Aliás, em saco recheado. Porque até o mais empedernido dos otimistas sabe que a corrupção e o compadrio vão atacar em força nos próximos anos. A grande dúvida e desafio colocados ao país é saber quanto dinheiro estamos dispostos a sacrificar. Quantos fungos comunitários vamos desenvolver. Façam as vossas apostas.

Diretor-adjunto

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