Não sabemos os seus nomes. Se eram homens, mulheres ou crianças. Não sabemos as razões pelas quais necessitavam de uma cirurgia. Não temos, sequer, hipótese de comparar a sua situação com a de outros doentes no passado. Desconhecemos o seu estado clínico. Onde viviam e em que lista de espera hospitalar estavam inscritos. Uma coisa, porém, sabemos. Uma coisa que é assustadora e que, em circunstâncias normais, devia ter causado um terramoto (mas os fogos tiraram toda a normalidade aos nossos dias). No ano passado, morreram 2605 portugueses à espera de uma cirurgia. Sete por dia. Destes, 231 eram doentes oncológicos. O arrasador relatório do Tribunal de Contas ao sistema público de saúde português (2014-2016), conhecido no epicentro de um turbilhão social - e por isso mesmo mitigado no impacto mediático - carece de explicações urgentes e cabais. Como em Pedrógão, como nos mais recentes incêndios, o Estado também falhou clamorosamente a estes portugueses.
Entre outras enormidades, a Administração Central do Sistema de Saúde (ACSS) é acusada de ter eliminado, entre 2014 e 2016, 234 mil pedidos de consulta mais antigos e de ter dado ordens aos hospitais para que fizessem o mesmo. Ou seja, limpou administrativamente milhares de nomes, em função de critérios como a antiguidade dos pedidos. Manipulando, dessa forma, a realidade. Transformando utentes em fantasmas. É legítimo perguntar: tem sido sempre assim e só agora batemos de frente com a chico-espertice, porque foi vertida para papel? E isto foi feito a mando de quem? Do Ministério da Saúde? Por exclusiva vontade dos dirigentes da ACSS? Veremos o que, hoje, no Parlamento, uns e outros têm a dizer.
Voltando às cirurgias, e olhando para as razões invocadas para não se terem realizado, percebemos que a maioria (31,01%) foi por desistência do paciente (e haverá aqui uma provável relação com os tempos de espera); que 10,85% dos utentes já tinham sido operados quando foram chamados (é legítimo concluir que fugiram para o privado); e que houve uma nada negligenciável parcela de "falsos" doentes (5,83%) que integravam uma lista de espera por "erro administrativo". Ou seja, mais do dobro dos que morreram à espera da salvação médica (2,84%). O que nos permite pensar que, se não tivesse havido tantos "erros administrativos" (falamos de mais de cinco mil pessoas!), poder-se-iam ter salvo muitas vidas. Não quero arriscar dizer todas. Mas isto já sou capaz de arriscar: 2605 tempos de espera excessivos foram 2605 funerais.
* Subdiretor
