Desde 2006 que o Santuário de Fátima não apresenta publicamente as contas anuais. Fá-lo porque pode. Porque a isso não é obrigado. Porque considera suficiente, por exemplo, que as verbas resultantes dos donativos dos fiéis, e que constituem a principal fonte de receita, sejam apenas do conhecimento do Conselho Nacional do Santuário, que está na dependência da Conferência Episcopal. E fá-lo, nas explicações dadas, em abril, por Carlos Cabecinhas, reitor do Santuário, à jornalista Rosa Ramos, numa entrevista a este jornal, com o argumento de que "com a implementação da Concordata (em 2004) tem havido dimensões e aspetos que não estão esclarecidos e que falseiam, de alguma forma, as contas a apresentar". Esta "não é uma questão do Santuário, mas de toda a Igreja portuguesa", acrescentou o também responsável pela organização da visita do Papa Francisco à geografia mais religiosa de Portugal.
Não podia concordar mais. Mas a falta de transparência da Igreja não nasce e morre no livre-arbítrio de quem gere a contabilidade de forma terrena. Além do mais, este está longe de ser "apenas" um problema da Igreja. Porque essa mesma Igreja que tem dois pesos e duas medidas (é capaz de divulgar que investiu dois milhões de euros nas comemorações do centenário das Aparições de Fátima, mas é incapaz de publicitar o montante entregue em donativos pelos cerca de 70 milhões de peregrinos que visitaram o recinto durante esses sete anos) beneficia de uma nada negligenciável dose de prebendas fiscais concedidas pelo Estado (ao abrigo da Concordata) que a colocam num patamar de diferenciação positiva face aos demais contribuintes. O que faz aumentar de forma exponencial o seu dever de transparência.
Portanto, a questão não deve colocar-se apenas no domínio da legalidade, mas da moralidade. Do exemplo. Para com aqueles que têm fé e para com todos os outros. Senão por outras razões mais mundanas, a Igreja Católica portuguesa não devia, por respeito pelo meritório trabalho social que desempenha, escudar-se em formalismos trôpegos e expedientes espúrios para justificar uma prática que, até 2006, era corrente. O então bispo de Leiria-Fátima, D. Serafim Ferreira e Silva, considerava "normal" que fossem prestadas contas aos fiéis. Opinião, de resto, que podia ser partilhada pelo Papa Francisco, ele que, no Vaticano, fez reger este procedimento aos princípios de contabilidade internacional para o setor público.
Mas os desígnios de Fátima são insondáveis. Ou se acredita ou não se acredita. No milagre. E na seriedade do revisor de contas.
* SUBDIRETOR
