Opinião

A lição de Tarantini

A lição de Tarantini

Uma das características mais desconcertantes e todavia mais apaixonantes nos grandes jogadores de futebol é a tentação irresistível de viverem numa constante vertigem entre o sublime e o vulgar. Entre a genialidade e a insolência. Não sendo isso que os define enquanto atletas profissionais, é, porém, essa dimensão que os torna autênticos e distintivos. Que lhes providencia um lugar na história. Se há uns 30 anos os miúdos de cinco ou seis anos queriam ser jogadores de futebol sobretudo por aquilo que isso significava em matéria de reconhecimento desportivo e realização pessoal, hoje não surpreende ninguém que à mesma pergunta respondam: "Quero ser jogador de futebol porque quero ser rico".

Na verdade, o poder de atratividade exercido junto dos mais novos explica-se, em larga medida, pela imagem de estrelas pop associada aos craques. E pelo acesso precoce a grandes quantidades de dinheiro. Por um estilo de vida que os guinda no elevador social e lhes dá uma notoriedade que poucos setores de atividade proporcionam.

Por acreditar no poder dos sonhos, mas por acreditar ainda mais no poder do pragmatismo, o capitão do Rio Ave, Tarantini, criou um projeto que ajuda os futebolistas a alargar horizontes, a ter consciência da importância de prepararem o futuro. Atacando o problema na raiz, junto das gerações mais novas. E agitando finais improváveis como o de Isaías, glória benfiquista que hoje trabalha num restaurante de Pombal para pagar as contas. Para provar, no fundo, que na maioria dos casos a subida aos céus acaba com uma queda aparatosa nos infernos.

A história de Tarantini é singular: cedo percebeu que não devia trocar a escola pelo futebol. Hoje com 32 anos, tem uma carreira desportiva sólida e é licenciado em Ciências do Desporto, tendo concluído o mestrado com 18 valores. "O Ronaldo ganha milhões, mas se estragasse milhões chegava ao fim da carreira pobre. Eu não ganho milhões, mas se estragar tudo o que ganho também vou chegar ao fim pobre".

Basta vermos o que acontece, todos os fins de semana, por esse país fora, em estádios de clubes profissionais e amadores, para se perceber a importância da mensagem. Os petizes festejam os golos como os ídolos, vestem-se fora do campo como eles, exibem penteados iguais. E são, muitas vezes, alvo da pressão dos pais, que, querendo o melhor para eles, vislumbram no seu talento natural ou empenhado esforço a antecâmara de uma carreira internacional forrada de êxitos.

É verdade que cada vez mais clubes fazem depender a carreira dos jovens do seu desempenho escolar, mas o que nos ensina a lição de Tarantini é que são os pais os primeiros gestores da carreira dos filhos. Que tão ou mais importante do que alimentarmos o sonho de um miúdo que ambiciona ser como o Ronaldo ou como o Messi é fazê-lo entender que o mais provável é isso não acontecer. E que se for assim não há problema nenhum. Porque há outros jogos para ganhar na vida.

* EDITOR EXECUTIVO-ADJUNTO

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