Opinião

A lição e o elefante

A lição e o elefante

A lição. Que é uma pergunta provocatória que ninguém fez: o PS perdeu o medo aos professores? Provavelmente, sim. E só não arrisco dispensar o advérbio de modo da resposta porque esta minicrise do regime provou-nos que as ancas dos líderes gingam com uma enorme destreza, mesmo em slaloms a grande velocidade.

António Costa esticou a dramatização espalhando maquilhagem eleitoral no rosto, mas foi corajoso ao declarar guerra a uma classe profissional ruidosa que já causou estragos a anteriores governos socialistas. Ao dizer que não há dinheiro agora, nem daqui a dez anos, para atender a todo o tempo perdido exigido pelos docentes, o primeiro-ministro pode muito bem ter dito adeus a mais de 100 mil potenciais votos, mas as razões por que o fez, para além das óbvias (as financeiras), merecem reflexão. Quer seja porque não quis criar, entre os trabalhadores da Função Pública, a ideia de que há filhos e enteados, evitando, assim, ser forçado a alargar o regaço do Estado a todos; ou porque, na sua cabeça, o peso eleitoral dos professores pode ser inferior ao que se supõe.

Naturalmente que se trata de uma especulação minha, mas o efeito nocivo do discurso monocórdico da Fenprof em torno dos nove anos, quatro meses e dois dias só tem contribuído para o progressivo desgaste público de uma classe que se deixou aprisionar por uma agenda sindical única e que, aos olhos de muitos portugueses, banalizou as razões do protesto, distorcendo, nesse registo obsessivo, o debate nacional sobre a importância de uma escola pública cuja missão primordial é formar e servir os alunos.

O elefante. Que esteve especado no meio da sala sem que ninguém lhe tocasse. Nova pergunta: quem tem coragem de mexer nas progressões automáticas da Função Pública? O silêncio foi em coro. O que é uma pena, porque na génese da discussão está também a resposta a esta reforma. Uma valorização profissional assente em critérios de desempenho pessoal e não na antiguidade ajudaria a dignificar o cargo de trabalhador do Estado, conferindo-lhe renovada autoridade para exigir aquilo que lhe prometeram mas não lhe podem dar.

* DIRETOR-ADJUNTO