Opinião

A revolução foi para o lixo

A revolução foi para o lixo

São os gestos simples, fortalecedores dos conceitos de pertença, que melhores resultados produzem nas comunidades. Em vários domínios, mas sobretudo no ambiental, ao qual estamos amarrados por imperativo de cidadania. Na rua onde moro, era frequente ver sacos plásticos esventrados no passeio, desperdícios acumulados na berma da estrada, enfim, um desleixo sem razão, mas ainda assim entendível face à inexistência de contentores nas proximidades. A relação com o lixo era passiva: acumulava-se tudo na via pública porque alguém haveria de passar para recolher o que já não pertencia a ninguém.

Não há muito tempo, e no âmbito de uma experiência-piloto para promover a reciclagem, foram distribuídos aos moradores contentores personalizados com diferentes cores, indicativas do tipo de resíduos a separar. A cada uma corresponde um dia de recolha. A costumeira resistência à mudança deu lugar à desconfiança. Ainda por cima grátis? Todavia, aos poucos, os caixotes começaram a surgir em frente às casas, num respeito escrupuloso dos dias e horas de recolha. Praticamente todos os moradores aderiram à lógica do porta a porta. Já não há sacas plásticas abandonadas na rua. E, em menos de dois meses, a paisagem alterou-se, provando que a consciência ambiental, quando não é espontânea, se educa se houver ferramentas de incentivo que a tornem lógica e necessária. Por isso, ainda bem que os oito concelhos do Grande Porto abrangidos pela Lipor vão estar representados até ao fim do ano neste esforço regional pelo ambiente. São ações como estas que é urgente replicar, responsabilizando e envolvendo quem tem o poder de mudar tudo com pequenos nadas.

Os portugueses fazem cada vez mais lixo, mas apenas um terço o separa. E, deste, quase metade é enviado para aterro. O progresso mede-se cada vez mais nestas réguas. Esta revolução é silenciosa. Que seja também imparável.

SUBDIRETOR

ver mais vídeos