Opinião

Cabala perdida

Não sei o que me revolve mais as entranhas: se o facto de a presidente da Raríssimas, Paula Brito e Costa, manter uma aparente vida faustosa a expensas de uma associação de solidariedade, se a circunstância de o ter feito mesmo após ter perdido um filho com uma doença rara que foi a inspiração para o nascimento do projeto.

Há uma dose tremenda de Kafka neste processo, mas há também uma nada negligenciável porção de Luís Vaz de Camões. Vemos aqui projetado o Portugal da caridadezinha, do uma-mão-lava-a-outra, do inescapável bloco central de interesses e de pessoas interesseiras. E, pior do que tudo, avulta a fatalidade do costume: um Estado que, tendo pouco, desperdiça em demasia. E não fiscaliza convenientemente aqueles que dele se servem.

A história da Raríssimas não se esgota na criatividade contabilística com que Paula Brito e Costa geria os fundos da instituição. Nos 230 euros de gambas, nos 400 euros de um SPA no Brasil, no vistoso BMW que conduz, nos vestidos caros em que se passeia, no salário chorudo com que recompensa o espírito de missão. Nem no charme institucional lançado sobre um ministro e um agora ex-secretário de Estado deste Governo. Há um passado meritório. Obra erguida. E um projeto de alcance social.

Porém, estes 15 anos vão esvair-se pelo ralo tão rápido quanto o Diabo esfrega um olho. Dificilmente a Raríssimas recuperará de um abalo desta magnitude, como se percebe pela fuga dos mecenas. Paula Brito e Costa bem pode garantir que tudo não passa de uma cabala bem urdida para a prejudicar, mas a verdade é que nem o mais imaculado dos corações conseguirá distinguir algum prejuízo no meio de tanto lucro.

E essa é, porventura, a maior tragédia deste caso: um trabalho de tantos, envolvendo um universo tão alargado de beneficiários com necessidades especiais, ficará reduzido e marcado pelo nepotismo e novo-riquismo de uma mulher que soube rodear-se de uma altruísta corte política. Seguramente que a investigação em curso ajudará a aclarar as dúvidas e a expiar demónios ainda camuflados, mas ao menos que este episódio não se cristalize na nossa repulsa e indignação.

O terceiro setor tem de ser melhor regulado. Um Estado que foi capaz de criar uma máquina fiscal tão impiedosa e competente está obrigado, moral e legalmente, a honrar o esforço contributivo dos cidadãos. Em particular aquele que se destina aos mais carenciados. Haja bondade. Mas haja vergonha.

*SUBDIRETOR

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