Opinião

Debater as cinzas

Debater as cinzas

Se o combate aos incêndios em Portugal fosse um filme de série B, podíamos resumi-lo assim: "Chamas infernais, descoordenação no terreno, bombeiros às cabeçadas, investigação do Ministério Público, audições parlamentares e comissão de inquérito" (as duas últimas fatalidades deverão estar por dias). Só não há uma ardente história de amor porque o tema presta-se pouco ao romance e muito à incompetência. Chega a ser penoso assistir ao drama de Monchique e ver expostas as fraquezas do costume. São os próprios bombeiros a personificar a estupefação coletiva: como é que mais de mil homens e 17 meios aéreos não foram capazes de controlar, ou apenas mitigar, durante quase uma semana, o mar de chamas que exauriu o pulmão verde do Algarve? A manchete de hoje do JN pode ajudar a explicar parte do problema (os helicópteros alugados à pressa não estão equipados com espuma antifogo, recurso determinante em fogos de grandes dimensões), mas há, na cronologia sumária deste incêndio, sinais evidentes de atrapalhação, de ausência de estratégia, de omissão de comando. A Proteção Civil sai, mais uma vez, chamuscada. Veremos se irremediavelmente.

Queríamos aprender tanto tão depressa que não aprendemos nada. Ao esforço financeiro do Estado para montar uma máquina eficaz de combate e à bem intencionada tentativa de sensibilizar os portugueses para a limpeza dos terrenos (onde isso já vai...), não correspondeu, depois, uma lógica funcional e integrada das estruturas de cúpula, obrigadas por definição a prever cedo e a agir depressa. Monchique, ainda assim, não é uma lição tão dolorosa quanto as infligidas há um ano, mas é um retrato em carne viva do que nos espera nos próximos anos. Continuaremos a fugir de uma casa a arder. Enredados num debate circular sobre meios e fins e longe, muito longe, do princípio de tudo. Debatendo as árvores. Não as cinzas.

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