Opinião

Democracia no litoral

Vagarosamente, o território continua a espreguiçar-se para o litoral. Vão as pessoas, os empregos, a economia, o progresso e as oportunidades. E vai também a democracia. As decisões. O novo mapa eleitoral mostra-nos que, nas eleições legislativas de 6 de outubro, quase metade (40%) dos deputados escolhidos pelos portugueses representarão os círculos de Lisboa e do Porto. O primeiro passa de 47 para 48 mandatos; o segundo ascende aos 40, mais um do que nas legislativas de 2015. Conclusão: nos dois maiores núcleos urbanos está um terço da força do voto.

Ora, se quisermos ensaiar uma extrapolação arriscada, mas não impossível, podemos afirmar que bastaria a um partido ser esmagador no Porto, em Lisboa, Aveiro (16 mandatos) e Braga (19 mandatos) para atingir os 123 deputados, o que chega e sobra para uma maioria absoluta. Se somarmos a estes os mandatos de Setúbal (18), ficamos com cinco círculos eleitorais a decidir as orientações políticas de um universo de 22.

A fatura desta descompensação demográfica é paga pelos do costume: os cidadãos do interior. Guarda e Viseu perdem um deputado, mas o decréscimo no número de eleitores também se verifica noutros 12 distritos. Santarém e Viana do Castelo estão entre os recuos mais expressivos, a par de Coimbra e Castelo Branco.

Mais do que lamentar a constância deste desequilíbrio territorial, traduzido em múltiplas dimensões já conhecidas, importa relevar o perigo que isto representa para a saúde da democracia participativa. Do risco de esta distorção eleitoral acabar espelhada na agenda dos partidos. Da enorme perversão que é termos um sistema que prejudica duplamente os que mais precisam de ser ouvidos. O país que manda está no litoral, no mesmo litoral onde vive quem escolhe quem deve mandar. O debate da descentralização também devia passar por aqui. Infelizmente, não passou.

*Diretor-adjunto