Opinião

Está na hora de descer à terra

Está na hora de descer à terra

Não é segredo para ninguém que os desequilíbrios regionais são um rolo compressor destrutivo.

Portugal vive em permanente tensão entre as áreas densamente povoadas e aquelas que, ano após ano, Governo após Governo, promessa após promessa, vão resistindo aos avanços de uma morte lenta. A excessiva litoralização da economia explica a perversão: governa-se a reboque de uma força aglutinadora, do atendimento preferencial a um território ocupado, de gente que consome, trabalha e se desloca em larga escala, em detrimento de um Portugal que envelhece na estatística e se dilui na narrativa do poder. No princípio, no meio e no fim, emerge a lógica circular de que os votos estão onde estão as pessoas. Por isso é que o renovado debate sobre o modelo de organização política (descentralização, regionalização, enfim, que o nome não seja impedimento para o fim da letargia) é tão premente. Sou sensível aos alertas de quem teme novas camadas de "partidarite" ao longo do processo, mas estou disponível para correr o risco. Tem de haver uma alternativa a isto que somos. Um país que se esgota na capital, que discrimina geograficamente os cidadãos no acesso às políticas públicas. Que não se valoriza devidamente na diversidade que tanto gostamos de vender aos turistas.

Aqui ao lado, em Espanha, onde o fervor regionalista é mais aceso (já para não falar da instalada organização administrativa), está em marcha um movimento social que devíamos agarrar como bandeira. Dezenas de milhares de cidadãos anónimos saíram à rua em Madrid, clamando por um pacto nacional contra o despovoamento, contra uma "España vaciada". "Nós não queremos aqui os políticos. Estamos assim precisamente por culpa deles", enfatizou Vanessa García, porta-voz do Soria Ya! Cingir o debate da harmonização territorial à esfera de influência dos gabinetes ministeriais é condená-lo à morte por revisitação. Os políticos não têm de ser o inimigo, mas fazer o caminho por eles pode obrigar a fazer o caminho sem eles. Talvez seja a hora de o Portugal esquecido se mostrar na rua, acordando de um sono profundo e induzido. Está na hora de descer à terra. Literalmente à terra.

*DIRETOR-ADJUNTO

Imobusiness