Opinião

Fake nus

Na série "After life", o ator Ricky Gervais interpreta o repórter de um jornal local especializado em notícias bizarras. Certo dia, visita a casa de um jovem casal que ligara para a Redação para informar que o filho de meses era igualzinho ao Hitler.

Não por ter nascido com um bigode igual ao do ditador, com um penteado idêntico e muito menos com os impulsos assassinos de um nazi. A razão era prosaica: os pais decidiram pintar um bigode ao petiz, desarrumar-lhe a melena e vestir-lhe um traje militar forrado a suásticas porque acreditavam que a "história" podia garantir-lhes uma primeira página. "Nós não somos fascistas, só achamos graça à ideia". O bebé era igual ao Hitler porque os pais queriam que ele fosse igual ao Hitler.

Ora, a caricatura usada por Gervais é, em certo sentido, a metáfora perfeita do que vieram a transformar-se os 15 minutos de fama que Andy Warhol eternizou. De como as fronteiras da vergonha, da decência e do pudor estão a ser sucessivamente renovadas, a expensas de uma fama fugaz, na maioria das vezes inconsequente, e não raramente corrosiva para os próprios.

Há dias, num "reality show" da TVI em que se pretende ensinar (mas alguém acredita?) a importância da desmaterialização na sociedade contemporânea, um casal de Braga apareceu nu em horário nobre. Porque o objetivo de "Começar do zero" é esse. Sem nada em casa, sem conforto, sem objetos pessoais, sem roupa. O casal justificou a presença no programa, entre outras razões, com a necessidade de passar a mensagem aos filhos de que é possível viver com menos. Não lhes ocorreu que seria preferível educá-los em casa e ter com eles algumas conversas sobre o assunto. Preferiram expor-se ao ridículo, tapando a nudez com peças de mobiliário de cozinha e dormindo num armário, assim fazendo valer a sua causa. A sua, não a dos filhos. Porque esses devem corar de embaraço de cada vez que alguém na escola os reconhece como dano colateral desta excentricidade. Valha-nos ao menos que não mostraram os miúdos. A má experiência da "Supernanny" só nos ensinou uma coisa: é possível descer mais fundo. Porque haverá sempre quem providencie um palco e haverá sempre quem se deixe inebriar pelo calor encantatório das luzes. Mesmo que tudo à volta continue a ser escuridão.

*Diretor-adjunto