Opinião

#Infarmedo

Lisboa não tem medo de nada até ao momento em que alguém ousa questionar essa sobranceria disfarçada de coragem. O caso do Infarmed é o pior e o melhor retrato desse país bolorento que medra, impante, no eixo Cascais-Chiado. Rebobinemos a fita: o Governo da nação quis dar um rebuçado ao Porto depois da cidade perder a corrida pela sede da Agência Europeia do Medicamento. Proposta súbita: mude-se o Infarmed para lá. Caiu o Carmo e a Trindade. Literalmente, porque o Carmo e a Trindade foram, em tempos, dois dos mais proeminentes conventos do Bairro Alto. Reação epidérmica: não pode ser. Porque o Infarmed é demasiado importante, lida com matérias complexas e, além do mais, mexer no que está bem é antipatriótico. Junte-se a isto a parte em que os trabalhadores do instituto público terão de mudar-se de armas e bagagens para a província... perdão, para o Porto, e temos construída a esforçada narrativa da resistência. Ora, uma comissão independente concluiu, agora, que o Infarmed afinal não é assim tão bem gerido e que a mudança para o Porto comportaria benefícios para o seu funcionamento e eficiência. E que, pasme-se, até ficava mais barato ao Estado. Prontamente se insurgiram os novos Velhos do Restelo, anunciando uma tempestade cósmica pós-deslocalização. Não, isto não é uma guerra norte-sul. Mudar o Infarmed é acabar com um vício que não se cura com medicamentos. O Porto deve querer tudo. Não deve aceitar menos do que tudo. Nunca uma delegação de faz de conta. Paliativa.

* JORNALISTA

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