Opinião

Mãe de sete

Entre as inúmeras proclamações certeiras da novel presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, há uma que brilha no escuro, porque, sendo prosaica, está na essência da missão luminosa de quem serve de bússola ao Velho Continente. Disse ela quando mostrou ao que vinha: "Fui europeia antes de ter percebido que era alemã". Para muitos, esta será apenas uma frase pompom para exibir ao Mundo no dia em que foi escolhida à justa pelo Parlamento Europeu para ser a senhora Bruxelas. Mas, na realidade, este é o molde que enformou o percurso político desta conservadora, ex-ministra da Defesa, mãe de sete filhos biológicos - e de um oitavo, abraçado no contexto da crise dos refugiados. Um jovem sírio de 19 anos fugido da guerra, que acolheu, como tantas famílias alemãs, e que, hoje, com 23 anos, é, segundo a própria, "uma inspiração para todos". O percurso pessoal da primeira mulher a presidir à Comissão Europeia é, inegavelmente, um poderoso aditivo ao currículo político.

A União Europeia que Ursula von der Leyen preconiza na sua carta de intenções é a única que faz sentido. Que trata os cidadãos de forma livre, solidária e igual. A Europa da integração, que não renega o rigor das contas, mas que defende as causas sociais com o mesmo vigor. "Todos os que trabalham a tempo inteiro devem receber um salário mínimo que permita uma vida decente", afirmou.

Num contexto de radicalismos crescentes, fronteiras musculadas e facadas na saúde da democracia, é com alguma esperança que olhamos para as linhas do projeto europeu desenhado por esta mãe de sete. Empenhada em unir e acolher, mas igualmente empenhada em tornar a paridade de género numa realidade efetiva e em fazer da Europa um farol no combate às alterações climáticas, transformando-a no primeiro continente com neutralidade climática até 2050.

O tempo para Ursula começa a contar agora. Perceberemos, nos próximos meses, se a forma alternativa como foi alcandorada a presidente da Comissão (prevalecendo, no caminho, a vontade do diretório de Estado e não a força das famílias políticas do Parlamento Europeu) não passará de uma debilidade temporária ou se, ao invés, acabará transformada numa cicatriz permanente. Até ver, esta mãe de sete demonstrou ter um plano. Não consigo imaginar melhor começo. Nem melhor futuro.

*Diretor-adjunto