As consciências europeias voltaram a agitar-se por causa dos refugiados. Bem, nem todas. Porque na Hungria e na Eslováquia, por exemplo, não houve sobressalto cívico.
Apenas vimos os líderes políticos do chamado Grupo de Visegrad aplaudir de pé a decisão de Itália de fechar os portos do país à entrada dos mais de 600 migrantes que andavam à deriva no Mediterrâneo. No necessário equilíbrio entre o valor das vidas e o valor da diplomacia, esta terá sido das ocasiões - desde que o Velho Continente foi confrontado com uma expressiva crise migratória - em que se foi mais longe na delimitação das fronteiras e na categorização das opções humanitárias.
"Não alteraremos a nossa decisão de sermos nós a decidir com quem queremos conviver", sentenciou Peter Pellegrini, chefe do Governo eslovaco. Da boca de Viktor Orban, seu homólogo húngaro, ouviu-se um aliviado e sonoro "até que enfim!". Matteo Salvini, o ministro do Interior italiano que lidera o partido nacionalista Liga, é o novo dínamo deste discurso xenófobo e populista que cavalga a trote na direção oposta à do ideário europeu. Itália clama vitória e tem razões para isso. Não só fez tábua rasa do Direito Internacional (embora as interpretações sobre as obrigações dos estados neste particular deem para todos os gostos), como empurrou o problema para Espanha, que usou da decência e do pudor que faltaram a Roma e disponibilizou-se para acolher aquelas centenas de desafortunados.
A Europa continua a navegar à vista. Não fala a uma só voz, age por impulso e revela, para o bem e para o mal, pouca solidariedade entre pares. O naufrágio em mar alto encontra, por isso, um perigoso paralelo em terra, onde a ausência de uma boia comum permite aos nadadores mais motivados atirar os mais fracos borda fora. Os dispensáveis. Ora, a Europa é o contrário disso. Deveria ser o colete salva-vidas e não o rombo irreparável no casco do navio sobrelotado.
SUBDIRETOR
