Opinião

Nós não fomos a Grécia

Nós não fomos a Grécia

Nós não somos a Grécia, nós não somos a Grécia, nós não somos a Grécia. Houve um tempo em que o fado lusitano se engrandecia vituperando aqueles que, como nós, se debatiam para desenlaçar um apertado nó no pescoço. Na verdade, era mais instinto de sobrevivência do que desejo de maledicência. Sempre que Bruxelas agitava um documento sombrio ou produzia uma declaração paternalista sobre a nossa propensão para o abismo orçamental, ouvíamos o primeiro-ministro e a ministra das Finanças entoar a cantilena. Não nos deu a vitória na Eurovisão, mas ajudou a abrir caminho para metermos um solista português no palco do Eurogrupo. A proclamação de Pedro Passos Coelho e Maria Luís Albuquerque veio a provar-se verdadeira.

Hoje, nós só não somos a Grécia, porque ontem não fomos a Grécia. A qual, pese embora o relevantíssimo papel desempenhado na confrontação política ao discurso único da austeridade, veio a revelar-se um doente aparentemente incurável padecendo de um mal altamente contagioso. No final, a batuta do malfadado diretório europeu levou a orquestra para onde bem quis. Em 2018, os gregos continuam de mão estendida, estruturalmente não resolveram nenhum dos problemas que obliteravam o progresso económico do país e vão a meio do enésimo programa de austeridade. Nós não fomos a Grécia. Mas livrámo-nos desse anátema da pior maneira.

Ora, a economia, por mais que se alimente das variações de espírito dos consumidores, vive sobretudo de ciclos e de carradas de pragmatismo. Quem diria, por exemplo, que, apenas quatro anos depois da saída da troika do nosso regaço, teríamos um presidente português do Eurogrupo a exigir mais esforço orçamental à mesmíssima Grécia? O "Ronaldo" do Eurogrupo - que ameaça relegar CR7 para a categoria profissional de Mário Centeno do Real Madrid - estreou-se no cadeirão de Bruxelas com a natural candura de sempre e o discurso musculado do costume: se a Grécia não cumprir o plano de ajustamento, e não o fizer antes do prazo estipulado, não verá a cor do próximo cheque. A vida dá mesmo muitas voltas.

Ter Mário Centeno como decisor bipolar (um pé nas cativações domésticas, outro nas comunitárias) pode, pois, ser de grande utilidade. Basta lembrar que os que hoje nos chamam "nórdicos do Sul" são os mesmos que, não há muito tempo, nos adornavam a campa quando definhávamos no lamaçal dos P.I.G.S. Não nos esqueçamos. E, sobretudo, não nos iludamos com música celestial criada à medida dos nossos ouvidos.

*SUBDIRETOR