Opinião

Os ursos do Algarve

As rotinas de verão são como o algodão: não enganam. Em julho e agosto, parte significativa do país estende a toalha a sul.

A população do Algarve, pouco acima das 400 mil pessoas, duplica no pináculo do calor. Instala-se um novo Algarve de turistas portugueses (fora os outros) no velho Algarve de residentes portugueses (fora os outros). Nada disto é novo. Como não é concluirmos que a imutabilidade pitoresca daquela geografia de excessos se presta, ano após ano, a visões menos condizentes com raios de sol e banhos de maresia. Vias de acesso congestionadas e decrépitas (não falo, obviamente, da A22, onde o assalto nas portagens é dos mais ultrajantes no nosso extenso mapa de extorsão rodoviária, mas sim da remendada mas inescapável EN125); um evidente excesso populacional e o decorrente impacto na sobrecarga das infraestruturas; e, sobretudo, uma resposta paupérrima ao nível dos cuidados de saúde. É sobre este último ponto que quero debruçar-me.

Num dos vários trabalhos que o "Jornal de Notícias" publicou sobre a região, contámos a história de Vera Correia e de Rui Costa, um jovem casal de Silves prestes a ter o primeiro filho, e de quão corajosa se tinha tornado a sua decisão de "programar" o primogénito para nascer no verão. Isto porque o parto pode coincidir com uma data em que a maternidade de Portimão esteja fechada. Ora, se Portimão não der resposta, Vera pode ir para Faro. Mas se Faro não der resposta (hipótese muito provável), o bebé tem de nascer em Lisboa. O marido, Rui, resume de forma cruel o drama desta e de tantas famílias que vivem num Algarve que os portugueses adoram adorar mas adoram esquecer. "Nós não somos ursos. Não existimos só nos meses de verão, para depois hibernarmos e acordarmos no ano seguinte".

Fernando e Alda certamente que concordam: decidiram mudar-se desse mesmo Algarve para Braga pelo direito à saúde. Ele é doente oncológico e desistiu de se tratar na região onde nasceu para poder salvar a vida. "Não há outra hipótese". Os algarvios, ao contrário do que sucede com os ursos-pardos, ainda não estão em extinção. Mas não é de esperar que, para o ano, acordem menos em perigo depois dos nove meses de hibernação e de esquecimento a que já os habituamos.

Diretor-adjunto