Entramos no estabelecimento e pedimos um café. "O cafezinho é cheio ou normal?" Pausa para respirar. Pedimos também uma água. "A aguinha, é natural ou com gás?" Se arriscamos, por hipótese, umas tripas, voltamos a expor-nos ao perigo: "Ora cá estão as tripinhas". Uma colher é uma colherzinha, um garfo é um garfinho. Um prato um pratinho. Mas a lista não é uma listinha. Porque há um vasto repertório vocabular ao serviço dos profissionais da restauração. É assim uma espécie de bandeja em forma de língua ancestral. Apesar de ser um segredo bem guardado entre os representantes da área, uma fonte bem informada confidenciou-me que, por exemplo, um aspirante a empregado de copa que entregue o currículo e não o curriculozinho está excluído à partida. Um pão tem de ser um pãozinho, a manteiga diz-se manteiguinha. Os bons treinam todas as manhãs em frente ao espelho. Não é defeito, é feitio. Simpatia. Sobretudo a norte, onde o coração está rente à boca. O pior é quando somos contagiados. "Olhe, desculpe, traga-me um guardanapinho, por favor". Mas é melhor assim. Se pedirmos um guardanapo, o mais provável é não haver. A cantilena dos diminutivos destoa sempre no final, quando pedimos a continha mas nos trazem a conta.
* JORNALISTA
