Se ainda restassem dúvidas sobre a forma nociva como os nacionalismos tolhem o discernimento, a insurreição espanhola está aí para prová-lo. Não leiam em insurreição espanhola insurreição catalã. Não estou certo de quem sejam os insurretos nesse palco povoado de atores fajutos que só falam e não ouvem. Se os radicais que rasgam as vestes autonómicas e anseiam por um futuro de costas voltadas para Espanha e para a União Europeia; se os conservadores que exibem à força do bastão uma imperícia política que chega a ser insuportável. Como na lei de Murphy, o que podia correr mal na Catalunha correu mesmo mal.
O presidente do Governo regional, Carles Puigdemont, deu ontem um passo em falso na cavalgada desafiadora, acrescentando um laivo de surrealismo ao processo, ao suspender a declaração unilateral de independência imediatamente depois de a ter declarado. A intenção, embora aparentemente dúbia, é cristalina: manter a pressão sobre Madrid sem largar a bomba atómica. As semanas que Puigdemont reclama, e que ecoaram como facadas nas costas dos aliados, são, no entanto, só à superfície um gesto de aproximação entre as partes. Nem ele nem Rajoy estão dispostos a portar-se como dois adultos numa sala. O que lhes sobra em obstinação falta-lhes em sentido de Estado.
O primeiro-ministro espanhol tinha a lei do seu lado, mas tropeçou nas pernas, convocando para a causa nacionalista até os espíritos mais críticos da secessão. Se uma forte mobilização regionalista alimentada por Madrid não foi suficiente para que nem metade dos catalães votassem no referendo, imaginem o que seria se Rajoy tivesse usado a inteligência. Fazendo-se politicamente de morto e deixando o fervor separatista esmorecer naturalmente.
A Catalunha (bem, uma parte, pelo menos) tem o direito de querer ser livre, quanto mais não seja porque aos povos não deve ser coartada a possibilidade de serem eles a escolher o próprio destino. Mas a forma aventureirista como o Governo de Puigdemont tem agido não contribui em nada para compreender e validar os argumentos pró--separatistas. Como não fortalece o propósito da causa unionista vermos Madrid castigar cidadãos por exercerem o direito ao voto. No meio de tudo e de todos, serve-nos de consolo o notável exemplo de civismo dado nas ruas pelo povo catalão. Até quando?
A Catalunha pode ser mais forte e autónoma sem reabrir feridas. Sem acicatar ódios. A Europa não precisa de mais muros além dos que já nos envergonham. Uma Catalunha livre e orgulhosamente só é um slogan eivado de poesia, mas o orgulho pode atirá-la para o limbo. A cegueira ideológica não deve ser uma bússola. Não é só Barcelona que tem a cabeça no cepo. Madrid também. É por isso que não vejo outra forma de desenlaçar o nó que não seja recorrendo a eleições. Se apenas na Catalunha ou em toda a Espanha, já não sou capaz de arriscar.
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