Opinião

Tão chocados que nós estamos

Tão chocados que nós estamos

O país está chocado, o primeiro-ministro está chocado, os partidos estão chocados e o presidente da República pede decoro apenas porque não pode assumir que está chocado.

Não há outro assunto que consiga gerar tamanho consenso público e urticária política quanto as dívidas acumuladas de Joe Berardo e a forma triunfal como se passeia, há anos, pelos corredores da fama, num português mal amanhado que usa para nos amesquinhar. E, ainda assim, podemos estar seguros de que nada de especialmente relevante acontecerá ao empresário duas vezes condecorado por um Estado que é seu parceiro de negócios e agora o condena moralmente, mas para o qual ele está-se nas tintas. Se fosse necessário erguer uma estátua à podridão do regime e das instituições, ei-la, esplendorosa e em tons dourados, em forma de colecionador de arte.

Mas não nos deixemos enganar pela dimensão circense da figura do comendador. Berardo é apenas um no meio de muitos desafortunados que riem. A coreografia que ensaiou no Parlamento teve o condão de provar a inutilidade das comissões de inquérito e de demonstrar o quão vazia e formalista consegue ser a ação fiscalizadora da Assembleia da República. No mundo real dos negócios de milhões, os estados de alma são traços de fraqueza. Berardo sabe-o melhor do que ninguém e por isso despreza os atores políticos. Menos quando eles lhe podem ser úteis.

A impunidade com que renomados insolventes são tratados pela máquina fiscal e judicial só é proporcional à tolerância com que vamos aturando os seus desmandos. É, de resto, desse efeito mitigador que eles se alimentam: ao pináculo da indignação segue-se a quietude do esquecimento. Hoje este, amanhã outro. A desfaçatez de Berardo é a mesma de Salgado, de Bava e de um pequeno exército que marcha com o poder. Não tenho dívidas, não me recordo, nada está em meu nome. A soberba é certamente chocante, sobretudo junto daqueles a quem não resta outro remédio senão liquidar os débitos. Mas a parcela política do país que tem a faculdade de tornar o ar mais respirável devia conter-se nos impulsos sentimentais. Têm de estar envergonhados, não surpreendidos. E muito menos chocados. Para nos fazer de parvos, já basta Berardo.

*DIRETOR-ADJUNTO