Opinião

Novo Banco, velho engodo

Novo Banco, velho engodo

Começa a ser cansativo, porque tem o mesmo efeito suicida de um tropeção constante em direção a uma espada, olhar para o desastre do Novo Banco e perceber que, por mais que os partidos esperneiem, por mais que os cidadãos se indignem, por mais que o presidente da República demonstre estupefação, por mais, até, que a tempestade tenha custado a cabeça do ministro das Finanças mais famoso da democracia, a vida segue como dantes.

Há uma conta faraónica por saldar que não pára de crescer e há um país encurralado num contrato ruinoso condenado a pagar. Os custos do envolvimento público na manutenção de um banco que continua a dar provas de que não merecia ter sido salvo estão bem para lá da dimensão política e orçamental. Continuamos a patrocinar uma grotesca imoralidade nacional.

Naturalmente que não se espera de um Estado sério que promova incumprimentos legais e rasgue contratos de forma justiceira, mas é penoso verificar que em nenhum momento desta fatalidade lusitana houve coragem política para, já não digo comprar uma guerra, mas para dar um pouco mais de luta. A qual, senão outro, podia ter tido o mérito de tornar um pouco mais respirável o ambiente de quem sofreu e continua a sofrer provações enormes e jamais ficará convencido pelo princípio imutável de que o risco sistémico decorrente da queda do antigo BES teria um efeito devastador no sistema bancário e na economia portuguesa. A alternativa ao caos está à vista. É uma cruz coletiva.

Já não restam grandes dúvidas de que o Novo Banco vai fazer uso dos 900 milhões de euros que ainda pode reclamar do total de 3,9 mil milhões dispensados pelo Fundo de Resolução que os contribuintes alimentam. Mas ficamos entretanto a saber pela boca do novel ministro das Finanças, João Leão, que o Estado ainda pode ter de injetar mais uns milhões fora do âmbito desse contrato, caso haja "eventos extremos" que o justifiquem. Ora, como quando se trata do Novo Banco sempre que sopra uma brisa descobrimos mais tarde que afinal é um vendaval, é bom que comecemos a preparar-nos para o mau tempo. Novo Banco, velho engodo.

*Diretor-adjunto

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