Opinião

O abraço de Ursula

Já não estávamos habituados a ouvir políticos alemães a dizer tão bem de Portugal desde que, em 2018, Angela Merkel se revelou muito feliz pela situação económica que encontrou no país e sobretudo desde que Wolfgang Schäuble, o circunspecto ex-ministro das Finanças germânico, se converteu à rigidez da máquina de calcular de Mário Centeno no Ministério das Finanças.

Agora, é a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, a distribuir dezena e meia de elogios à nação dos "grandes exploradores e pioneiros que nunca temeram aventurar-se no desconhecido", a propósito do Plano de Recuperação e Resiliência que o Governo está a ultimar e que definirá, no imediato, o destino a dar a cerca de 15 mil milhões de euros de subvenções comunitárias. Felizmente para nós, este abraço de Ursula que nos amorna o coração não tocou nem na gigantesca dívida pública que nos enlaça o pescoço nem nos dois milhões de pobres que nos envergonham. "Não há país melhor para nos guiar na tempestade e para embarcar no nosso futuro", ilustrou ainda a mulher-forte de Bruxelas.

É certo que o momento é de enfatizar qualidades e não de esculpir defeitos. Mas as proclamações excessivamente entusiastas encerram o perigo de sempre: fazem-nos exceder as expectativas, deixando pouco espaço a essa maçada que dá pelo nome de realidade. Foi, por isso, importante o sinal dado por António Costa de que Portugal apenas recorrerá às verbas a fundo perdido, prescindindo da generosa maquia dos empréstimos, que só ia tornar mais pesada a cruz do nosso endividamento.

Nada nos impede de sermos ambiciosos no que desejamos para Portugal, mas não podemos cair na ilusão de pensar que vamos conseguir mudar numa década aquilo que não conseguimos mudar em 50 anos. Acorrer no imediato aos mais vulneráveis, mitigando os efeitos devastadores desta pandemia, é urgente. É aí que o Estado pode e deve fazer a diferença. Se não estancarmos essa ferida, podemos estar certos de que a caminhada até à meta do desenvolvimento económico será trôpega.

Diretor-adjunto

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