A Abrir

O poder dos exemplos

Há dias, o jornal britânico "Daily Star" fez uma capa divertida sobre um assunto sério. Nela podia distinguir-se Dominic Cummings, principal assessor do primeiro-ministro Boris Johnson, com um picotado à volta do rosto, para o leitor poder recortar.

Em título: "Grátis, máscara faz-o-que-raio-te-apetecer-e-goza-com-todos". Cummings dera o pior exemplo na pior altura, ao desrespeitar o dever de confinamento. Fez, com a mulher e o filho, uma viagem de mais de 400 quilómetros, violando a lei que obrigava os britânicos a permanecer em casa. O casal, sublinhe-se, estava infetado com covid-19. Dias volvidos, o "The Guardian" publicou uma reportagem numa praia em que dava conta da dificuldade dos agentes da Polícia em fazerem pedagogia junto dos cidadãos, de quem iam ouvindo, repetidamente, a mesma frase: "Se o Cummings pode, eu também posso".

Na complexa gestão da pandemia, tem sido determinante a forma como os decisores políticos e os responsáveis pela saúde pública dos países comunicam. Sobretudo nesta fase do regresso à vida. Quando o presidente da República dá um mergulho no mar e o primeiro-ministro passa umas horas no areal de uma praia, não é de esperar outra coisa que não seja uma mimetização por parte dos cidadãos. Esse é o poder dos exemplos. Quem nos representa legitima as nossas ações e comportamentos. Ainda assim, isso não impediu que Graça Freitas tenha recriminado os jovens que se juntam em grandes grupos para conviver, inclusivamente na praia. Seguimos o exemplo ou a recomendação?

Anteontem, o mesmo primeiro-ministro esteve a assistir, no Campo Pequeno, a um espetáculo musical com duas mil pessoas. Foi fácil perceber que o distanciamento social ficou muito aquém do recomendável. Donde avulta novamente o poder dos exemplos e a justeza dos critérios. O que dizer aos adeptos de futebol que vão ficar fora dos estádios? Às claques que não se podem juntar? O que dizer aos pais que não puderam levar os filhos mais cedo para a escola nem aos parques infantis? Todos temos pressa em voltar à vida, mas agora mais do que nunca as fronteiras para esse regresso têm de ser rigorosas, sob pena de ninguém as levar a sério, por um lado, e, mais grave, estarmos a somar às vítimas do confinamento as vítimas do desconfinamento.

* Diretor-adjunto

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