Opinião

O presidente que sair disto

O presidente que sair disto

Temia-se que a frequência dos debates televisivos com os candidatos presidenciais pudesse resultar numa rotina enjoativa, mas as audiências têm provado o contrário.

É verdade que o formato das refregas e a animosidade entre as personalidades ajudam, mas para quem assumiu como religião que o "país real" não se deixa mobilizar pela política, estes dias têm sido de desencanto com a realidade. Já vimos de tudo: lutas na lama com e por causa de André Ventura, monólogos de Marcelo Rebelo de Sousa, clivagens ideológicas entre Esquerda e Direita para ver quem ama mais o Estado, terminando nos apontamentos teatrais de Vitorino Silva, o candidato do povo que é o rei dos soundbites.

Ora, foi precisamente no mais recente confronto entre o outrora "Tino de Rans" e Marcelo que o primeiro deixou uma importante reflexão sobre o ato eleitoral de dia 24 e do que daí advirá. Perguntou Vitorino Silva: faz sentido que, num contexto de pandemia, e prevendo-se uma abstenção bastante expressiva, o presidente eleito possa ver reconhecida a sua autoridade se, por exemplo, muitíssimo menos de 50% dos portugueses votarem? Vitorino usou as regras constitucionais aplicadas aos referendos para largar a inquietação, embora estas não se apliquem às presidenciais.

Ainda assim, não há como evitar o elefante na sala: em 2011, a abstenção atingiu 53,4%. Em 2016, bateu nos 51,3%. Num e noutro caso, o presidente foi eleito por menos de metade do país com capacidade de voto. Agora vamos enquadrar estes números no âmbito do regresso a um confinamento total, de um medo recrudescido, de um sentimento de incompreensão por parte de quem será obrigado a ficar em casa e não entende que, duas semanas depois, lhe seja permitida a "ousadia" de sair "só" para votar. Acresce que boa parte do eleitorado estará convencida de que não vale a pena "correr o risco", porque a única dúvida é saber por quanto vai ganhar Marcelo (importa recordar, já agora, que, na segunda ida às urnas de Cavaco Silva e Jorge Sampaio, a abstenção foi sempre superior à primeira).

Por tudo isto, e face à impossibilidade de se alterar a Constituição a tempo para mudar a data do sufrágio, esperava-se que as campanhas de apelo ao voto fossem mais expressivas e duradouras. E que os candidatos fizessem a sua parte. Porque não vai ser fácil convencer um país enclausurado para a importância do voto. Ademais, o apertar das medidas deverá tornar muito mais exigente a logística sanitária. Esperemos que a máquina aguente. E esperemos sobretudo que um vírus que nos fez abdicar de tantos direitos não mate, por falta de comparência, um dos nossos deveres fundamentais: escolher livremente quem nos representa.

Diretor-adjunto

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