Opinião

O TINA da pandemia

Durante os tempos austeros da troika, o jargão mediático decidiu reciclar o conceito TINA (do acrónimo em inglês There Is no Alternative, ou seja, não há alternativa) que, umas décadas antes, a primeira-ministra britânica Margaret Thatcher popularizara.

O não há alternativa ao garrote assumiu, agora, uma variante pandémica com a gestão política da crise. Portugal está há mais de seis semanas em confinamento e esse longo deserto irá estender-se pelo menos por mais meio mês, provando que, neste momento, a melhor maneira de fazer alguma coisa é não fazer nada. A carga dramática colocada ontem pelo primeiro-ministro na necessidade de ficarmos quietos é, no essencial, da mesma índole da usada na véspera pelo presidente da República.

António Costa deixou, ainda assim, espaço para uma "luzinha ao fundo do túnel", enquanto Marcelo Rebelo de Sousa preferiu estender o breu da travessia até à Páscoa. A mensagem de um e outro significa duas coisas: em primeiro lugar, não há de facto alternativa a um confinamento duro, porque a prometida testagem em massa tarda em acontecer e os atrasos no processo de vacinação não permitem imunizar a comunidade à velocidade desejada.

Em segundo lugar, não há confiança na razoabilidade dos portugueses, que já foram responsabilizados pelo desastre do Natal e podiam pecar novamente na Páscoa. Os cerca de quinze dias que separam a estratégia de Costa e de Marcelo não são coisa pouca. O presidente tem margem para pairar sobre a gestão executiva, mas o Governo está obrigado a agir depressa, não só porque os recursos públicos não são imensos, mas sobretudo atendendo à escalada irreparável de uma crise social e económica sem precedentes.

O primeiro-ministro sabe muito bem que a tolerância do país está por um fio, porque os portugueses andam mais na rua, que os danos causados nos alunos e na comunidade escolar são tremendos e que a ausência de perspetiva no imediato é globalmente destrutiva. Como estratégia política, o não há alternativa ao confinamento é confrangedor. Como salvaguarda da integridade dos sistemas de saúde e da vida, é tudo o que podemos ter.

*Diretor-adjunto

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