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Opinião

Um preso, duas medidas

Um preso, duas medidas

Por mais informação que nos sirvam, por mais objetiva que tente ser a nossa análise, parece não haver forma de enquadrar a figura de Rui Pinto à margem do preconceito original.

Os adeptos portistas querem passeá-lo em ombros, os do Benfica anseiam vê-lo pregado numa cruz. Ora, nem Rui Pinto é santo ou diabo, nem a discussão nasce ou morre numa taberna. Ainda assim, a cegueira cristalizou-se, mesmo agora que o hacker português anunciou ter sido ele a fonte do Luanda Leaks, esse terramoto que abalou o regime angolano e deixou a alta finança portuguesa com nervoso miudinho.

Que bom é vermos a nossa Justiça tão prolixa a querer investigar e colaborar com a congénere angolana e que triste é percebermos que no caso do Football Leaks se agarrou com unhas e dentes aos crimes informáticos e de alegada extorsão de que Rui Pinto é acusado e a partir daí moldou uma estratégia que a faz assobiar para o ar em tudo o resto. E tudo o resto, é bom lembrar, são revelações chorudas que permitiram a diversos países europeus recuperar largos milhões de euros em impostos. Só podemos sentir vergonha alheia quando lemos num jornal alemão que as autoridades francesas pediram uma cópia dos discos rígidos com medo que, uma vez em Portugal, os dados fossem apagados.

Santificar ou diabolizar Rui Pinto não serve de nada. O hacker português deve ser julgado pelos crimes de que é acusado, mas a desproporcionalidade de ação (está em prisão preventiva há um ano!) faz supor que outros valores se levantam. Que sempre se levantaram. Investigar o mensageiro não é incompatível com a investigação da mensagem que ele providenciou.

O que está agora em causa é muito mais do que uma simples violação de correspondência e tentativa de extorsão a um fundo de jogadores. O que está agora em causa é a forma como a Justiça portuguesa, e por arrasto a imagem externa de Portugal, quer ficar para a História nesta história. Se como um obstáculo cúmplice à revelação de crimes cabeludos à escala global, se como interveniente ativa e colaborante no apuramento e punição de práticas criminosas altamente lesivas dos cidadãos e do Estado. Julguem Rui Pinto pelos crimes que ele possa ter cometido, mas não enfiem a cabeça na areia em relação aos crimes que ele desenterrou. Para o mesmo preso, tem de haver duas medidas.

*Diretor-adjunto