Opinião

Figura do ano? Cristina Tavares

Figura do ano? Cristina Tavares

Escrevia há dias Martín Caparrós, numa crónica do jornal "El País", que há uma sobrerrepresentação de próceres nas efígies das notas: os grandes das nações, quase todos patilhudos.

Apesar da observação do escritor e jornalista argentino ser contaminada pela realidade sul-americana, é possível dizer que se passa mais ou menos o mesmo quando se escolhem as figuras que marcam o ano que acaba. Com uma ou outra exceção "pop" (este ano foi Greta Thunberg), são os próceres que marcam o ritmo: Trump, Bolsonaro, Merkel ou Johnson lá fora; Guterres, Marcelo, Costa ou Centeno, cá dentro. Sem patilhas, que estão fora de moda, mas próceres ainda assim. Melhor figura do ano seria Cristina Tavares, a operária da corticeira de Santa Maria de Lamas, duas vezes despedida e duas vezes reintegrada. O primeiro despedimento, ainda em 2018, por extinção fraudulenta do posto de trabalho. A segunda, estava 2019 a começar, por difamar a empresa, ou seja, por denunciar o negreiro que a obrigou a carregar e descarregar, sucessivamente, na mesma palete, os mesmos cinco sacos, com as mesmas cinco mil rolhas cada um. Ao contrário do que é habitual neste mundo moderninho, cheio de beleza "instagramável", em que já não há proletários, só colaboradores e equipas, a arbitrariedade do capitalista não se impôs. Cristina aferrou-se ao posto de trabalho e ao salário (magro) que lhe garantia a subsistência e a do filho. Uma postura heroica, quase suicida, que foi chamando gente. Do mundo dos dos sindicatos e dos jornais primeiro. Do mundo dos partidos e da cultura depois. Cristina ganhou as duas batalhas. Mas sabe melhor do que ninguém que a guerra por um mundo mais justo e menos desigual não termina nunca. Se não for esta Cristina, outros irão provar os efeitos da prepotência e da ganância. Como alertou aliás o bispo emérito Januário Torgal Ferreira, voz incómoda que regressou ao ativo em nome de Cristina. A mensagem que trouxe não foi a da esperança, como a que alguns próceres da Igreja usam para adormecer crentes mais incautos. Trouxe antes uma mensagem de resistência e de libertação: "Resistam, resistam (...) Porque amanhã outros tentarão quebrar as pernas a outros trabalhadores".

Chefe de Redação

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