Opinião

90 minutos, com sorte…

90 minutos, com sorte…

Cavani, avançado uruguaio que atirou Portugal para fora do Mundial, escreveu uma carta a Edinson. O primeiro tem 31 anos, o segundo tem nove. Mas são a mesma pessoa. Vale a pena ler o texto na íntegra (na publicação online "The Players Tribune"). E uma passagem em particular. Diz a estrela de futebol, agora habituado a uma vida de luxo em Paris, ao menino pobre de Montevideu que foi, e a quem faltava quase tudo (que não a bola e o sonho): "Quando és uma criança, tens a sensação de que a pessoa mais bem-sucedida é aquela que tem mais coisas. Quando cresces, percebes que a pessoa mais bem-sucedida é aquela que tem a sabedoria de viver a vida. Quando conseguires ser bem-sucedido no futebol, terás tudo aquilo com que podes sonhar. E terás de ser extremamente grato por isso. Mas tenho que ser honesto contigo. Existe apenas um lugar onde podes ter liberdade total. Dura 90 minutos, se tiveres sorte!". O tempo de um jogo. O melhor do futebol. Por oposição ao que tem de pior, que é quase tudo o resto. No futebol português, os últimos meses (como os que estão para vir), são exemplares. Da vulgaridade, da falta de princípios, da violência, da demência. E do crime fiscal, como se lê no mais recente relatório de combate à fraude e evasão fiscal. São pelo menos 90 processos instaurados pela Autoridade Tributária e Aduaneira relacionados com a contratação e transferência de jogadores. Não vale a pena ter ilusões. Mesmo um grande futebolista pode ser um mau cidadão. Veja-se Ronaldo, exemplar dentro do campo, condenado a pena de prisão fora dele. Voltemos à carta que Cavani escreveu a Edinson: "Em muitos aspetos, vives um sonho. Em muito outros, és prisioneiro desse sonho. Não podes sair e sentir o sol. Não podes tirar as chuteiras e jogar na terra. Acontecerão coisas que vão complicar a tua vida. É inevitável". Sobram os 90 minutos. Com sorte...

*Editor-executivo-adjunto

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