Opinião

"Coletes amarelos"

Foi há cerca de mês e meio que uma mulher de 33 anos, negra, gestora de uma loja online de cosméticos, publicou uma petição no site "Change.org". Num texto longo e fundamentado, Priscillia Ludosky pedia a baixa do preço dos combustíveis.

Tinha tudo para receber umas centenas de assinaturas digitais, outras tantas partilhas nas redes, gerando likes ou emojis de feições apopléticas. E cair no esquecimento. Acontece que a petição se encontrou com Eric Drouet. E à soma de apoios virtuais (226 mil em dez dias, mais de 1,2 milhões nesta altura), o motorista, também de 33 anos, caucasiano, colou o apelo a um bloqueio a nível nacional, um protesto dos franceses que têm cada vez mais dificuldade em chegar ao fim do mês com dinheiro na carteira. Porque vinha aí mais um aumento do imposto sobre os combustíveis. Uma mulher e um homem normais acenderam um rastilho dos "coletes amarelos" e a rua impôs-se aos salões.

Com protestos pacíficos e violentos, com infiltrações reais ou imaginárias de extremistas de direita e de esquerda, Priscillia e Eric conseguiram uma vitória: a taxa sobre os combustíveis foi revogada. A história acaba aqui? Não vale a pena fazer previsões. O movimento foi colecionando reivindicações: recuperar o imposto sobre as grandes fortunas (que Macron anulou), substituir os círculos uninominais pela representação proporcional nas eleições parlamentares, subir o salário e pensão mínimos, reformas aos 60 anos, aumentar impostos às grande empresas e reduzi-los aos pequenos negócios, acabar com a exploração dos idosos (o ouro grisalho), tornar obrigatórios cursos de língua, história e educação cívica para imigrantes (porque viver em França implica tornar-se francês) e um longo etc.. Demasiada ambição, porventura, para um movimento inorgânico, horizontal, que não só não tem liderança, como a rejeita. Ainda assim, ficamos todos a saber que os coletes amarelos que nos obrigam a ter no carro podem servir para algo mais do que brilhar no escuro.

Chefe de redação

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