Opinião

Migrantes

1095, 318, 99. Não são números ao acaso, antes uma estimativa de migrantes mortos nas três principais rotas do Mediterrâneo (Itália, Espanha e Grécia), nos primeiros sete meses deste ano. Foram divulgados pelo Alto-Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados, para coincidir com os três anos do aparecimento numa praia da Turquia de Alan Kurdi, menino sírio de dois anos. Dizem-nos ainda os números que aumentou a taxa de mortalidade dos que se fazem ao mar em busca de uma vida digna para si e para os seus. Entre outras razões porque, para europeus de vários quadrantes geográficos e políticos, salvar vidas no mar deixou de ser um imperativo moral ou legal. De qualquer forma, números fáceis de digerir. Porque é raro darem origem a fotos suficientemente belas, ainda que trágicas, que justifiquem partilha no Facebook, como a de Alan. 5000. Outro número. A quantidade de dólares que Tima Kurdi enviou ao irmão, Abdullah, para a travessia do Mediterrâneo. A tia de Alan estava há muito no Canadá e acompanhava a saga da família, acossada pela guerra e pela miséria. Também ela viu a foto e reconheceu a tragédia, sem precisar que lhe dessem um nome. O polo vermelho, os calções azuis e os sapatos do rapazinho morto na orla do mar fora ela que os oferecera. Três anos depois, para além da culpa, Tima sente necessidade de carregar ideias simples: "Nós também somos seres humanos. Celebramos os aniversários, trabalhamos, estudamos". O problema é que "nós" é agora sinónimo de "outros". Tons de pele e religiões diferentes. Pouco dinheiro. Tivesse a família Kurdi 71 150 euros (outro número) e poderia ter comprado um apartamento e um visto gold na Letónia. Preço de saldo. Aqui em Portugal, no outro extremo da União Europeia, há padrões mais elevados: cobramos 500 mil. Não dá para sírios, nigerianos ou iraquianos perseguidos pela guerra ou pela fome, só para russos, chineses, brasileiros e americanos que perseguem um livre-trânsito europeu. Gente que, não deixando de ser um número, acrescenta numerário.

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