O embrulho azul

Cruzei-me com o espectro numa manhã de tempestade. Seguia de carro, mas devagar. Porque a rua, naquele troço, é estreita; porque constituía um obstáculo; porque chovia a cântaros e a visibilidade era escassa. O que me fez olhar, para além de ver, não foi tanto o facto de ser um ciclista em dia de temporal. O que me fez olhar foi o formato do embrulho azul, em plástico impermeável, na parte de trás da bicicleta. Era estranho, porque terminava em cone. Fui ultrapassando, para finalmente perceber que era uma criança pequena (talvez da idade do Vasco, que seguia comigo no carro, confortável, aquecido e seco) o que confundi com um embrulho.

Segui o meu caminho, tentando, pelo retrovisor, olhar também o rosto de quem pedalava com esforço, agravado pelo temporal. Pareceu-me ser uma mulher, porventura a mãe, mas o rosto estava escondido, em parte pelo seu próprio capuz de plástico, em parte por uns óculos de lentes grossas. Presumi, pela hora, que seguiam para a escola, e confirmei-o uns dias depois, de novo num dia chuvoso, quando me cruzei de frente com a mulher, quando ela já fazia o caminho de regresso a casa, de novo coberta de plástico dos pés à cabeça, a poucos metros da escola onde já deixara o seu precioso embrulho.

Passaram-me várias coisas pela cabeça, depois daquele primeiro e fugaz encontro. Entre a compaixão (pela situação penosa em concreto), a revolta (por ser possível que no meu país uma criança ainda esteja sujeita a semelhantes provações) e a admiração (pela força da mãe e da criança, persistindo contra ventos e tempestades). Mas esses foram pensamentos vulgares. Mais estranho foi lembrar-me de Jorge Coelho, um dos homens mais influentes da política portuguesa. E lembrei-me porque o ex-ministro socialista é agora comentador da "Quadratura do círculo", na SIC, e, numa espécie de profissão de fé, e não estando o tema na agenda do programa, lembra de vez em quando a pobreza infantil, para desafiar os seus camaradas no Governo a lançar um programa de combate a esta tragédia nacional. À primeira vez, pensei que era sinal de que poderia estar para chegar algum anúncio que valesse a pena. Mas se Jorge Coelho foi persistindo, programa após programa, do lado do Governo e dos partidos de Esquerda que o suportam, ninguém tugiu, nem mugiu.

Há dias, a memória voltou a atormentar-me com a imagem do espectro com que me cruzei numa manhã de tempestade. Foi enquanto assistia, pela televisão, a mais um debate entre Rio e Santana. Por não ter ouvido nem uma palavra sobre o pior dos défices, o da pobreza que se abate sobre centenas de milhares de crianças portuguesas. Poderia aqui apresentar inúmeras estatísticas que o provam. Fico-me pela referência a um pequeno embrulho azul.

* EDITOR-EXECUTIVO

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