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Salgado e Sócrates

Foi um verão quente, o de 2014. Nos primeiros dias de julho, o homem mais poderoso do país foi obrigado a abandonar a liderança do Banco Espírito Santo. Um mês depois, em agosto, já não existia BES. Ricardo Salgado deixava de ser o "Dono Disto Tudo". Mas foi preciso esperar por 21 de novembro do mesmo ano para se começar a perceber melhor o alcance da alcunha. Foi esse o dia da detenção de José Sócrates. Ontem, 11 de outubro, a temperatura manteve-se elevada. O Ministério Público colocou ponto final nas dúvidas e formalizou uma acusação formidável: o "Dono Disto Tudo" também foi "dono" de um ex-primeiro-ministro, e, por arrasto, de um Governo. Salgado corrompeu, Sócrates foi corrompido, e assim muitos milhões de euros trocaram de mãos, do primeiro para o segundo, dizem os procuradores.

Dirão outros, ao ler o que já aqui se escreveu, que num Estado de direito, que é suposto ser o nosso, somos todos inocentes, até prova em contrário - mesmo gente que tenha cometido os mais repugnantes crimes. E têm razão. Ricardo Salgado e José Sócrates ainda não foram condenados por coisa nenhuma. O mesmo Ministério Público que agora acusa, terá de fazer prova num tribunal, e será depois este a decidir se os alegados corruptor e corrompido o foram de facto, se a isso corresponde penalização e qual será. Acontece que encerrar a discussão por aqui, por muito politicamente correto que pareça, seria também politicamente absurdo. Seria como tapar o sol com a peneira, que é o que fazem muitas vezes os políticos incomodados com a mudança brusca de temperatura e se socorrem do chavão habitual: à política o que é da política, à justiça o que é da justiça.

Não. Neste caso, a justiça irrompeu violentamente pela política, porque esta se tornou um caso de justiça. A acusação da chamada Operação Marquês não é uma condenação, mas tem indícios mais do que suficientes e suficientemente fortes para obrigar a uma reflexão sobre a forma como o poder económico e financeiro é capaz de controlar e dominar o poder político, subvertendo a democracia. O tema é muitas vezes tratado em teses e ensaios, mas quase sempre em abstrato. É também usado de forma recorrente por políticos em campanha, quase sempre com o único intuito de mostrarem que são mais probos que os adversários. Nada como uns milhares de páginas de um processo judicial, que tem a obrigação de dar nomes aos bois, para que fique claro que cancro é este que corrói as nossas elites económicas, financeiras e políticas. Não é preciso esperar por uma absolvição ou por uma condenação de Salgado e Sócrates, essa sim, uma decisão que é matéria exclusiva da justiça e que garante o tal Estado de direito.

EDITOR EXECUTIVO