Opinião

O cerco de Madrid

Escrevem os jornalistas que acompanharam as eleições em Madrid que nunca se viu uma campanha tão polarizada. "Comunismo ou liberdade", alertou a Direita. "Democracia ou fascismo", avisou a Esquerda.

Como escrevia a enviada do "Politico", a radicalização do discurso fazia lembrar o clima de guerra civil que dilacerou Espanha no século XX. Com a diferença substancial de que, nesta segunda versão do cerco de Madrid, os fuzis usados pelos avós foram substituídos pelas injúrias dos netos. O ódio é semelhante.

Os resultados de ontem demonstram que há partidos que sobrevivem pior do que outros a um ecossistema político extremado. Desde logo, os socialistas do PSOE, no poder a nível nacional, com fortes perdas para os partidos à sua Esquerda. O outro grande derrotado da noite foi o Ciudadanos. A formação que nasceu centrista e liberal paga o preço da inclinação para a Direita e segue em passo acelerado em direção ao fim.

Foram os autores e os destinatários da propaganda acima referida os que mais ganharam. À Esquerda, e apesar da derrota do bloco progressista, Podemos e Más Madrid (dissidência do primeiro) ganharam relevância. No caso do Podemos, era um caso de vida ou de morte, ao ponto de o líder, Pablo Iglésias, ter deixado a vice-presidência do Governo nacional (em coligação com os socialistas) para se assumir como cabeça de lista regional. Cresceu, mas não o suficiente e ontem mesmo abandonou a vida política. Mas foi também ele que concentrou a retórica e o ódio da Direita, que disso tirou a devida vantagem.

Desde logo, o Partido Popular (Direita conservadora), que venceu as eleições e duplicou o número de deputados. Mas também a ultradireita do Vox. Mesmo que o crescimento seja modesto, serão estes a ter a última palavra na formação de um Governo.

Não é um facto menor. Esta Direita populista e nacionalista, que agregou os saudosistas de Franco, os ultraliberais, os inimigos das nações espanholas (em particular de catalães e bascos), os apaniguados dos touros e do catolicismo ultra, ganha peso a cada eleição. O passo seguinte será levar a sua agenda racista e machista para um Governo nacional, sempre pela mão do PP. Talvez não venha aí o fascismo (como não viria o comunismo), mas vem uma ameaça à democracia.

*Diretor-adjunto

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