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Os efeitos de Ana Gomes

Os efeitos de Ana Gomes

É quase oficial: Ana Gomes será candidata às presidenciais de janeiro do ano que vem. Candidata socialista (militante do partido, antiga eurodeputada), ainda que sem o apoio do PS (uma nova tradição, posto que o partido também não apoiou candidato em 2016). Ora, só o facto de haver uma candidata socialista, por oficiosa que seja, é suficiente para virar a campanha de pernas para o ar. Nem tanto por causa do resultado final (é provável que o atual presidente seja reeleito e talvez por margem folgada), mas porque o debate deixa de ser exclusivamente entre o presidente que representa a moderação do centro político e os insurgentes (estejam eles à Esquerda ou à Direita).

Outro dos efeitos da candidatura de Ana Gomes é o da deslocação da candidatura de Marcelo Rebelo de Sousa para a Direita. É possível que a máquina de calcular do presidente o não deseje, mas é essa a direção de momento. Veja-se o líder do CDS, que há um mês desafiava Marcelo a clarificar se seria o candidato do centro-direita ou do centro-esquerda e que agora exulta com o presidente que "a Direita" já tem.

Outro efeito da presença de Ana Gomes, diz-se, é o de servir de tampão ao extremismo de Direita de André Ventura. Há até dirigentes socialistas que já assumiram ser essa a principal virtude da candidatura. Pode parecer excessivo atribuir tanto valor a Ventura, quando ainda tem de o demonstrar nas urnas, mas o próprio já acusou o incómodo que lhe causa a candidatura de Ana Gomes, com a elegância habitual de quem distribui argumentos misóginos ("histérica") e xenófobos ("amiga das minorias que vivem do nosso trabalho").

Finalmente, a presença da socialista terá efeitos nas candidaturas dos dois partidos mais à Esquerda, que até aqui podiam aspirar a resultados mais volumosos. Em particular para Marisa Matias, eurodeputada do BE, uma vez que é patente que Ana Gomes está hoje mais à Esquerda que a maioria dos seus companheiros do PS. Quanto ao futuro candidato do PCP, o desafio será conseguir ultrapassar o patamar dos 5% e receber a subvenção estatal (há quatro anos, Edgar Silva não só não conseguiu, como ficou apenas escassas décimas à frente de Tino de Rans). Com Ana Gomes na lista, também este objetivo parece mais difícil.

*Chefe de Redação

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