Opinião

Somos nós que pagamos a guerra de Putin

Somos nós que pagamos a guerra de Putin

Desde o dia em que as tropas russas entraram na Ucrânia que as democracias europeias se confrontam com um paradoxo: a Europa que se solidarizou com o povo ucraniano é a mesma que paga a guerra de Putin.

Tendo como referência os volumes e preços do ano passado, só com a importação de energia (petróleo, gás e carvão), a União Europeia vai entregar à Rússia, este ano, 100 mil milhões de euros. Cem vezes mais do que o apoio militar prometido pela União Europeia à Ucrânia.

A cautela dos políticos é compreensível. Se bastou a guerra (mesmo mantendo o fluxo de petróleo e gás russos nas pipelines) para provocar uma escalada de preços que ameaça atirar o Mundo para uma recessão brutal, imagine-se o que será com um boicote em toda a linha. Os dois euros por litro de gasóleo que os portugueses agora pagam nas bombas passariam a três, talvez quatro. E o custo da energia para as indústrias portuguesas, em vez de dez, como já acontece, teria de multiplicar-se por vinte.

Mas depois chegam-nos as imagens e os relatos dos que sobreviveram à ocupação russa em cidades como Bucha ou Irpin. As execuções sumárias. Os cadáveres com mãos atadas atrás das costas. O homem morto ao lado de um saco de batatas. As valas comuns. As crianças assassinadas quando os pais as tentavam levar para lugares mais seguros. Um catálogo de crimes que só não reconhece uma população russa afogada em propaganda e tolhida pela censura e uns quantos negacionistas ocidentais alienados (incluindo em Portugal).

O catálogo de horrores obriga todos a tomar decisões difíceis. Expulsar diplomatas, como estão a fazer os governos (também o português), é anedótico. Discutir (devagarinho) o fim das importações de carvão russo é insuficiente. Quebrar a máquina de guerra de Putin só será possível quando a Europa fechar as torneiras do gás e petróleo russos (e pressionar outros parceiros a fazer o mesmo). É certo que terá custos. E que não podem ser os de sempre (os mais pobres) a pagá-los. Mas, em nome da decência e da humanidade, não valerá a pena um empobrecimento relativo e momentâneo?

*Diretor-adjunto

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