Opinião

Um piscar de olhos

1. É um dos clichês mais repetidos da opinião política: se o Governo acena com um aumento do salário mínimo nacional, está a piscar o olho à Esquerda.

No entanto, e se pensarmos bem nisso, a frase é extraordinária. E mais ainda por ser promovida e amplificada por tantos dirigentes e comentadores dos vários partidos em que agora se divide o Centro e a Direita. Porque esta arguta análise conduz diretamente a duas leituras adicionais, para lá da questão dos efeitos oculares: a primeira, bastante esdrúxula, é a de que o salário mínimo só o ganham trabalhadores de Esquerda; a segunda, bastante contraproducente em termos eleitorais, é a de que os partidos do Centro e da Direita não estão nada preocupados com quem ganha o salário mínimo nacional. É difícil acreditar que isto seja verdade, mas, para o caso de ser, alguém avise que até os patrões já abandonaram aquela fantasia de que aumentar o salário mínimo é o caminho mais rápido para fazer crescer o desemprego. E admitem até, vejam bem, que é "razoável" acrescentar mais 100 euros em quatro anos.

2. Não é que a notícia não tenha sido dada. Mas não foi seguramente um tema que agarrasse a maioria dos opinadores políticos. É compreensível, uma vez que, embora também tenha a ver com dinheiro, como o tema precedente, este diz respeito a pessoas ricas e não a pessoas pobres. E já se sabe que é uma falta de educação falar sobre dinheiro entre gente bem-sucedida. Refiro-me ao facto de a Comissão Europeia nos ter atribuído o terceiro lugar entre os países da União Europeia que mais dinheiro desviaram para os paraísos fiscais: 50 mil milhões de euros. Pelo menos em parte há de ser dinheiro que os nossos 117 mil milionários (serão 174 mil dentro de cinco anos, diz o Credit Suisse) pouparam, ao longo dos últimos 15 anos, pagando salários mínimos aos 700 mil trabalhadores que lhes garantem a riqueza e o fausto. E com isto baralhei-me: quem pisca o olho a quem?

*Chefe de Redação