Opinião

Uma mão lava a outra

É sempre inevitável. É sempre uma tentativa de evitar catástrofes maiores. É sempre a contragosto. É sempre com a certeza de que não haverá custos para o contribuinte ou de que os benefícios compensarão os prejuízos.

É sempre por decisão de um Governo socialista ou de um Governo social-democrata. É sempre com empresas que ora são privadas, ora são públicas. É sempre em empresas muito importantes para o país, mas com sede e gestores em Lisboa. É sempre assim que se vão atirando milhares de milhões de euros de dinheiros públicos para cima de empresas falidas.

O episódio mais recente é o da TAP. Recapitulemos: no ano passado, o Estado injetou 1200 milhões na companhia aérea lisboeta (a presença no Porto serve sobretudo para levar os passageiros até Lisboa). Seguiu entretanto para Bruxelas um plano de reestruturação, que prevê ajudas públicas adicionais de dois mil milhões até 2024. Como a autorização europeia emperrou, o Governo adiantou 462 milhões, através de um aumento do capital social, que lhe permite ser agora dono de 97,8% da TAP. Ou seja, vai ter de pagar 97,8% dos futuros prejuízos da TAP. Presumindo que tudo corre bem (nunca corre) a conta chegará aos 3200 milhões.

O episódio mais antigo é do Novo Banco lisboeta (para quem já não se lembra, chamava-se Banco Espírito Santo e Comercial de Lisboa). Recapitulando: à cabeça foram logo 4900 milhões de euros para pagar a resolução (falência disfarçada, em linguagem simples). Depois a promessa de mais 3900 milhões no mecanismo de capital contingente (compensação à Lone Star pela maçada de comprar o Novo Banco, em linguagem simples). E ainda tropelias várias que custam mais dois mil milhões de euros. Presumindo que tudo corre mal (corre sempre), a conta chegará aos 10 800 milhões.

Uma última conta, só para concluir. O Governo (e supõe-se que o povo) exulta com os 14 mil milhões de euros da bazuca europeia que o país vai receber e Lisboa, como sempre, vai gerir. É curioso que as faturas do Novo Banco e da TAP somem precisamente 14 mil milhões. Como se costuma dizer, uma mão lava a outra.

Diretor-adjunto

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