Aprendemos todos os dias o valor da diversidade: de plantas e animais numa floresta ou charneca, do tipo de alimentos à mesa, das pessoas e atividades numa cidade.
Na paisagem, somos privilegiados: a variação geográfica das condições climáticas e geológicas permitem que, em Portugal, sejamos capazes de ver formas do relevo e combinações entre povoamento, sistema agrário e floresta muito variadas, numa deslocação de poucos quilómetros.
Confirmei isso, no que foi até meados do século XIX o concelho de Aguiar de Sousa, em Paredes, no percurso desde o lugar do Salto, onde o rio Sousa passa uma formidável garganta entre as serras de Pias e Santa Iria, junto à aldeia de Alvre. Há, infelizmente, muitos eucaliptos e mimosas em terra e a pinheirinha a tapar parte da água do rio, mas pode-se também apreciar belíssimos fetos e musgos, além de sobreiros, salgueiros e amieiros, assim como a transparência da ribeira de Santa Comba. Alvre, com cerca de 450 habitantes, fica junto a um nó da A41 e a menos de 30km do Porto, mas parece "rural profundo".
Quando lá passei, havia dois burros junto a uma casa vazia, uma mulher com roupa preta a cegar erva, outra que conduzia pela rua um grupo de ovelhas e um homem num pequeno trator; velhas casas de xisto, ruas sem passeios e um café que também é sede de associação local, onde um cartaz pede para não usar o jornal mais de 15 minutos.
Mas, ouve-se português com sotaque do Brasil, percebe-se bem que a maioria dos habitantes não depende da agricultura e há muitas casas recentes, incluindo vivendas de arquitetura mais arrojada, além das reabilitadas, de quem valorizará o sossego e a natureza. Por alguma coisa, Alvre não perdeu população entre 2011 e 2021.
Viva a diversidade!
* Geógrafo e professor da Universidade do Porto

