Tenho um filho que vive e trabalha na Holanda. Recordo com carinho a viagem que, em finais de 2000, fiz a Roterdão, integrado numa delegação municipal do Porto, no âmbito do intercâmbio e troca de experiências entre as duas cidades que seriam, pela primeira vez em partilha, Capital Europeia da Cultura em 2001.
Recordo, com estima, um velho holandês que conheci em Luanda, com quem partilhei casa nos dias de trabalho que lá passei, e de quem recordo a razão da sua presença naquele país: "Preciso de espaço! Na Holanda não há espaço" (referindo-se ao facto de a Holanda ser dos países com mais densidade populacional da Europa, apenas suplantado por Malta). Admiro o engenho dos holandeses que tornaram viável um país em que grande parte do território se situa abaixo do nível do mar. E não esqueço pintores brilhantes holandeses como Van Gogh e Rembrandt, cujas obras são hoje património cultural mundial. São, assim (apesar das saudades que, naturalmente, tenho do meu filho), positivos os sentimentos que nutro por este país e pelo seu povo, apesar das dificuldades de comunicação com uma língua de "que não se apanha uma"...
Mas a arrogância com que os governantes holandeses se movimentam pelos palcos da União Europeia, é, de facto, repugnante. É que eles olham para os povos dos países do Sul mais ou menos como muitos portugueses olham para aqueles que recebem o rendimento social de inserção: como parasitas que só não se levantam porque são preguiçosos e incompetentes.
Se, durante a crise de 2008, o problema foi económico e social, hoje, em que temos em primeiro lugar um drama sanitário, as palavras dos responsáveis holandeses são ainda mais inadmissíveis e demonstradoras de que a "União Europeia" não existe, sendo uma federação de interesses individuais oportunísticos - aquilo a que o nosso povo chama "um saco de gatos"......
Convém recordar que o ministro das finanças holandês pertence a um partido - o CDA, Apelo Democrático Cristão, o que não deixa de ser irónico, para tanto humanismo...... - que se senta, no Parlamento Europeu, no mesmo grupo do PSD e do CDS (não deixando de ser curioso o ensurdecedor silêncio de Paulo Rangel e Nuno Melo sobre o assunto!).
Mas, neste processo, o que mais repugnância me provoca é o facto de a maioria dos grandes grupos económicos (que integram o chamado PSI20) ter as suas sedes na Holanda, para pagarem menos impostos. Dando força à arrogância dos ministros holandeses (ricos sem produzirem riqueza!) e tornando hipócritas quaisquer atos beneméritos que agora assumam em Portugal, que mais não são do que uma migalha face à riqueza que subtraem ao país para alimentar os seus cofres e os cofres... holandeses. Até quando toleraremos isto?!
