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Opinião

Vergonha

Não, não quero falar da "vergonha" que, esta semana, agitou o país. Porque o "sem-vergonha" que nos envergonha não o merece e porque quem fez essa chamada de atenção já devia ter experiência suficiente para não lhe dar mais protagonismo do que aquele que injusta, mas deliberadamente, tem merecido por parte da Comunicação Social.

Quero falar da vergonha que foi a proposta do Governo de aumentos de 0,3% para os salários dos funcionários públicos. Ou seja, depois de uma década de congelamentos salariais que resultam no título de ontem do JN - "famílias tinham há 10 anos mais 175 euros para gastar no Natal" -, uma proposta com este valor cheira mesmo a provocação. Porque, efetivamente, para que com este "aumento" um funcionário público ganhe mais 1 euro por dia, tem de auferir, mensalmente, mais de 7300€ - o que não acontece a ninguém! Por outras palavras, quem tem o salário médio em Portugal (que é de 951€/mês) terá um aumento que não chega a 13 cêntimos por dia! Estou, assim, de acordo com aqueles que consideram esta proposta uma vergonha.

Para além de insultuosa, esta proposta é incoerente. Como pode o Governo propor um aumento de 0,3% para os "seus" trabalhadores e propor ao setor privado aumentos de 2,7%? Ao jeito do "olha para o que eu digo, não olhes para o que eu faço" - e sabendo que, onde não há contratação coletiva, os 0,3% passarão a ser a referência para as entidades patronais... Neste caso, a vergonha vem, também, da reação das entidades patronais, que não conseguem sair da tacanhez que faz com que a competitividade da maior parte das empresas nacionais não saia da "cepa torta" ... Porque o aumento dos salários (e todos sabemos que em Portugal são dos mais baixos da Europa, pelo que não vem daí a falta de competitividade...) devia ser encarado como uma necessidade e um pretexto para atuar noutras vertentes que contribuem para a produtividade: inovação nos produtos e serviços, aposta em novas tecnologias, melhoria da organização empresarial, eficiência energética.

Mas não: as confederações patronais, se têm de fazer o "sacrifício" de aumentar salários, logo correm a pedir a contrapartida da baixa de impostos, o que faz com que os aumentos salariais passem a ser pagos por todos os portugueses (incluindo os funcionários públicos...). Faz-me lembrar o totonegócio que, na década de 90, foi negociado pelos clubes de futebol com o Governo Guterres. Lembram-se? Os clubes de futebol deviam milhões de euros ao Fisco. Lá fizeram um acordo para pagar as dívidas. Mas o dinheiro vinha de um aumento das comparticipações pagas a esses mesmos clubes pelas receitas do Totobola! Em síntese, a mentalidade das confederações patronais continua a ser a dos totonegócios desta vida......

*ENGENHEIRO

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