Cidadania impura

Dar nomes à chuva

Íamos de galochas para a escola e lamentávamos os guarda-chuvas que perigavam no vento. Raros de nós tinham impermeáveis, chegávamos a deitar mão de sacos de plástico mas, à entrada da escola primária, ensopados, éramos um só lamento e a normalidade absoluta.

A sala aquecia com um mísero fogão a lenha, perto do qual deixávamos casacos e camisolas, às vezes os cadernos. Secávamos a roupa interior no corpo, brancos pijamas, enquanto tremíamos e medíamos a fúria do tempo pelas vidraças, ouvindo sobre matemática e palavras com mais de três sílabas. O temporal era o inverno inteiro.

Nunca me passaria pela cabeça, então, que alguém quisesse dar nome à chuva. Sabíamos bem do que se fazia dezembro ou janeiro. O fim de janeiro era o pior do ano, o monstruoso frio, a humidade, o vento que deitava sempre abaixo as árvores mais sozinhas. Àquilo tudo, tudo junto, chamávamos apenas inverno. Demorava meses e podia aparecer na televisão por haver acidentes de carros e voarem telhas das casas mais velhas. A televisão lamentava muito o azar e a pobreza, que pareciam inevitáveis. Falhava muito a luz elétrica. Algumas cidades adormeciam às velas, era frequente. Toda a gente guardava velas e fósforos. Nós tínhamo-las em cada canto para o susto de ficarmos às escuras constantemente. Refilávamos abreviados porque íamos dormir sem sono, muito mal conformados.

Os estrangeiros puseram-nos agora a dar nomes à chuva. Vem a Elsa ou o Fabien, como se alguém chegasse com o imenso tamanho do céu, se abatesse por toda a parte e tivesse culpa. A contemporaneidade é tão feita de um espírito ofendido que nem o inverno passa como antes. Passa acusado.

Prometeram, contudo, que vamos ter um Natal em sossego. Acalmará a intempérie e usaremos os nomes do costume, como se chovesse ou ventasse sem necessidade de acusações. Talvez aí nos deva arrepiar o peito, onde verdadeiramente importa medir a invernia. É o que me impressiona no Natal: essa oportunidade de nos avaliarmos e, em consciência, decidir melhor para depois. Isso mesmo vos desejo. Uma chuva sem nome, sem culpados, apenas a bravura de resistirmos no bom senso e na poderosa cordialidade. Não esqueçamos nunca que a mais preciosa conquista do Mundo é a paz. Boas-festas. Um muito bom Natal a todos.

*Escritor

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