Todos, por uma vez na vida, lidamos com a intransigência do Estado quando nos atrasamos com algum pagamento. E, se não tivermos cuidado, depressa as multas nos batem à porta. O contrário, infelizmente, não acontece: a democracia vai evoluindo, devagarinho, mas os cidadãos ainda não adquiriram o direito de multar um Estado que nem na hora da morte paga a tempo e horas. Esta é a conclusão mais evidente da matéria que poderão consultar adiante, nas páginas 6 e 7 desta edição do "Jornal de Notícias".
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Como se não bastasse o choque de terem de lidar com a partida de alguém que lhes é muito próximo, as famílias ainda convivem com o facto de o subsídio por morte, uma verba normalmente canalizada para pagar as despesas com os funerais, demorar, nalguns casos, um ano a chegar. É claro que, por tabela, além dos familiares, também as funerárias são afetadas por uma demora que a Segurança Social não confirma totalmente. Mas que existe, existe.
Este é um bom mau exemplo de como somos maltratados pelo Estado, uma tendência que se agravou desde a chegada da troika e, em muitos casos, não se diluiu após a sua passagem. Não podemos estar constantemente a ser bombardeados com discursos de vitória por terem sido contornadas as adversidades de uma economia frágil para, depois, quando escrutinamos a realidade, sermos confrontados com situações como esta, na qual é ultrapassado o limite da falta de sensibilidade. Além do pagamento tardio, acresce que o subsídio em questão sofreu uma tesourada das grandes em 2012. De 2500 euros, passou para metade, situando-se, agora, em 1287 euros. Independentemente do valor em causa, tudo o que as pessoas não precisam, na hora em que perdem um familiar, é de ganhar mais um problema difícil de resolver, privando-os do descanso e do recato necessário para cumprirem o luto.
Espero também que, ao contrário do que acontece com outros constrangimentos financeiros evidentes - nas áreas da Saúde e do Ensino, por exemplo -, este não resulte de alguma cativação camuflada. Para que não restem dúvidas, convinha que o Estado encontrasse uma forma mais digna de tratar os que partem e não voltam. E, sobretudo, os que continuam por cá, com a dor de viver sem eles.
* EDITOR-EXECUTIVO-ADJUNTO
