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Uma cabeça dois Centenos

Uma cabeça dois Centenos

O Governo, então com Mário Centeno como ministro das Finanças, pediu um documento ao Banco de Portugal; o Banco de Portugal, agora liderado por Mário Centeno, entende estar impedido de entregar o documento a quem o solicitar.

Não fosse demasiado sério, daria vontade de rir. Nem quero imaginar o conflito latente na cabeça do governador, obrigado, por lei, a dizer não a si mesmo. Se estivesse no lugar dele, para evitar uma guerra entre dois eus, provavelmente apostaria em endereçar-me um bilhete. Qualquer coisa parecida com isto: "Caro Mário Centeno, eu, Mário Centeno, não te mostro os papéis que me pediste". Sem mais, seco, não vá ser preciso ressuscitar Freud para resolver esta guerra entre dois hemisférios do mesmo cérebro.

Certo é que só uma decisão judicial poderá obrigar o Banco de Portugal a entregar o relatório da auditoria à atuação da instituição na resolução do Banco Espírito Santo. Mais uma vez, numa questão que envolve relações entre a Banca e o Poder, as normas favorecem a opacidade. Continua a ser necessária muita insistência e doses gigantes de paciência para se conseguir saber alguma coisa, quando devia acontecer precisamente o inverso. Estamos a falar de decisões que custaram, e continuarão a custar, muitos milhares de milhões de euros ao país, pelo que não encontro motivos para não serem translúcidas como água.

Se os portugueses continuarão preocupados - com uma fatura do BES que não pára de engordar e com os obstáculos que inviabilizam o cabal esclarecimento da questão -, Carlos Costa, o ex-governador, e a antiga equipa continuarão a dormir descansados, ainda que sejam a cabeça e o corpo de um regulador que tardou a perceber a anormalidade que eram as contas do BES mas à pressa o dividiu em bom e mau.

Editor-executivo

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