
Artur Machado/Global Imagens
Liceu possui um valioso acervo de história natural e de química. E foi ali que nasceu o Cineclube do Porto.
O olhar do professor Manuel Lima ilumina-se quando fala da Escola Alexandre Herculano, a que há 20 anos se dedica de corpo e alma e onde quer ver nascer, com a requalificação do imóvel, um núcleo museológico que permita mostrar o acervo dos museus da Secundária - de história natural e física - à comunidade.
Diz-nos que esta é "uma última oportunidade" para vermos o antigo liceu do Porto oriental - que, jura, "tem uma magia" - antes da transformação imposta pelas obras, cujo início deverá coincidir com o arranque do próximo ano letivo. "Nunca mais será assim, com esta configuração, porque vai haver alteração dos espaços", revela o diretor da escola. Incluindo o do Museu de História Natural - que dará lugar à biblioteca -, no piso superior, as janelas brancas estilizadas a abrirem para a varanda da frontaria do imponente edifício do arquiteto portuense José Marques da Silva.
Manuel Lima abre a janela vigiada por um grifo embalsamado, e, da varanda, contempla a Avenida Camilo, a espraiar-se desde a Escola Pires de Lima - que deverá acolher alguns alunos do "Alexandre" ao longo do "ano e meio" da empreitada -, até ao edifício rosa da Junta do Bonfim. Este museu "ultrapassa, à vontade, o meio milhar" de exemplares, estima, a destacar "o lince-ibérico, um ex-líbris", entre inúmeras espécies: "Acho que só o museu da Faculdade de Ciências de Coimbra ultrapassa, em importância, o acervo que temos".
Noutra área, onde em tempos foi a cantina - a placa azul, no topo da porta, está lá -, Manuel Lima instalou, em 2006, o Museu da Física, com a ajuda dos professores de Física e Química, que reuniram e catalogaram "centenas de peças" que "estavam espalhadas pelos vários laboratórios". "Temos peças valiosas; algumas dos primórdios do liceu", orgulha-se o diretor. A pilha de Volta e a esfera celeste, um globo de vidro que simula o sistema solar, são das "mais importantes e antigas", indica Sílvia Maia, funcionária durante 10 anos nos laboratórios de Física e Química. Também as peças que os compõem, como as bancadas de origem, serão preservadas.
"património de todos"
O acervo dos dois museus integrará um núcleo museológico único a ser instalado na atual zona da cantina, ao fundo da escola. O objetivo é "criar um espaço para exposição permanente e fazer exposições temporárias com o que estiver guardado", explica Manuel Lima, a lembrar que este "é um património de todos, e merece condições condignas".
Mas as relíquias do "Alexandre" - que tem sido procurado por turistas, julgando tratar-se de "um museu ou palacete", ri o diretor - não se esgotam nos museus ou laboratórios: há, entre os corredores, uma porta altíssima, em amarelo torrado (a cor das portas das salas de aula), encimada por uma das velhas placas metálicas, azuis, esta com a inscrição "Cinema educativo".
É a sala de cinema, mostra Manuel Lima, orgulhoso de cada recanto, incluindo o mobiliário e uma pequena cabina que abriga uma antiga máquina de projeção e bobinas. Para que a cidade não esqueça que foi ali, no antigo Liceu Alexandre Herculano, que nasceu, em 1945, o Cineclube do Porto - primeiro foi Clube Português de Cinematografia -, o mais antigo do país, fundado por Hipólito Duarte, que liderou um movimento de estudantes apaixonados, como ele, por cinema.
